Literatura para um mundo melhor

Por Ana Carolina Carvalho*

Terça-feira passada não foi mais um dia de uma semana comum. O primeiro turno das eleições havia sido no domingo e, ainda na ressaca daquele dia tenso, a Casa Tombada estava aberta para acolher os convidados do Ciclo de Encontros – Como Nasce o Desejo de Ler, promovido pela coordenação do curso de pós-graduação O livro para a infância. Naquela terça, numa noite quente, foi Bel Santos Mayer quem ofereceu sua fala e seu entusiasmo para uma plateia que, assim como ela, acredita no poder de transformação da literatura. Sim, Bel é uma das coordenadoras da Rede Nacional de Bibliotecas Comunitárias, do LiteraSampa e do Ibeac (Instituto Brasileiro de Estudos e Apoio Comunitário), que existe desde 1981 em São Paulo, e aposta na presença e no poder de bibliotecas comunitárias para transformar a realidade de populações carentes.

Bel logo conta que quando recebeu o convite para participar do Ciclo de Encontros d’A Casa, se perguntou: “Onde nasce o desejo de parir leitores?”. E com voz tranquila e gestos que parecem dançar, ela contou que viveu em uma casa que demorou para conhecer os livros. “Os livros e as palavras só estavam dentro da escola. Nos anos 1960, meus pais migraram da Bahia para São Paulo. Meu pai pensava: se a gente conseguir comer, viver e dormir, está bom. As minhas irmãs estudaram o Primário e foram trabalhar. Quando foi a minha vez, de algum lugar, veio o desejo de continuar estudando. Pedi para o meu pai para estudar até a 8ª. série. Quando chegou a 8ª. série, veio o desejo de continuar. Pedi para ele para fazer o magistério.” De desejo em desejo, Bel se construiu. Do magistério partiu para a faculdade de Matemática, deu aulas na periferia e, pouco tempo depois morria de amores pela literatura.

“A gente não quer tiro na nossa cabeça. Como vamos enfrentar o genocídio, a violência? É com a poesia, com a palavra”.

“Em 1984, eu fui para uma manifestação contra o racismo na Avenida Nazaré, no Ipiranga, e encontrei uns jovens negros do Rio declamando poesia de Solano Trindade, Oliveira Silveira, Miriam Alves. Aí eu encontrei algo que mexeu no meu corpo. Uma palavra que me ajudou a dizer coisas que a minha memória ancestral não sabia como falar. Aquilo mexeu muito com a minha história.” E Bel, como ela mesma se define, virou “uma matemática convertida em literatura”. Foi justamente com livros embaixo do braço que Bel chegou a Parelheiros, um dos bairros mais carentes da cidade de São Paulo. Há dez anos, ela e os coordenadores do Ibeac decidiram que concentrariam suas ações em um único território e algumas das perguntas que se fizeram na época foram: é possível criar um território leitor? Pegar um bairro, dois bairros e transformar pela literatura? “Procuramos quais eram os piores lugares para se viver na cidade de São Paulo. Passamos três anos analisando os dados do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) e chegamos a três lugares. Destes, escolhemos o que tinha menos gente ajudando: Parelheiros.”

A sorte estava lançada: o grupo apresentou a proposta para os moradores da região e contou o que as pesquisas mostravam sobre a realidade dali. “Decidimos mudar a partir dos jovens. Apareceram 27 deles em um dia de semana à tarde”, lembra Bel, contando que foi naquele momento que se criou uma maternidade de leitores. Muita gente não entendia a proposta da tal transformação por meio da literatura. Bel sempre disse: “A gente não quer tiro na nossa cabeça. Como vamos enfrentar o genocídio, a violência? É com a poesia, com a palavra”. Outros perguntavam se não era melhor levar uma profissão para aqueles meninos. “Queremos que eles desejem todas. Porque a leitura é esse campo do desejo. A literatura faz a gente desejar coisas que a gente não imaginava que existia. E isto tem acontecido lá em Parelheiros.”

Firmes no propósito, Bel, os meninos e seu grupo povoaram Parelheiros com palavras. Com histórias, sonhos e futuro. A primeira biblioteca comunitária da região ocupou uma sala na casa de saúde. Ganhou o nome de Pílulas de Leitura. “A ideia era que, a cada consulta, o paciente levasse um livro para casa. O médico entregava, junto com o receituário, um livro que seria devolvido na consulta seguinte. Na sala de espera, os meninos ficavam lendo para quem estava lá.” Mas quando chegou o dentista (a região até então carecia desse tipo de atendimento), a biblioteca precisou de um novo lugar. “Fomos parar na casa do coveiro, que estava desocupada. Os meninos falavam: Eu não vou nem morto! Esse era o desafio: fazer a palavra ter vida em um lugar de morte. Transformamos a casa do coveiro na Biblioteca Caminhos da Leitura”, lembra Bel.

Em dez anos, o projeto só cresceu: aqueles meninos do comecinho descobriram que tinha gente, como a escritora Carolina Maria de Jesus (que morreu em Parelheiros e eles nem sabiam), que escrevia o que eles só sentiam, que a literatura tinha sabor e cheiro e que por meio dela podiam ser gente. Ter profissão. Olhar e cuidar um do outro e da família, e das crianças. Da biblioteca comunitária, nasceram outros programas, como o Mães Mobilizadoras, o Praia Literária, o Sarau Mulher Negra Presente, a Casinha das Histórias e o Núcleo de Alimentação Saudável. Bel retoma o começo da história: “Volto à pergunta inicial que nos fizeram: por que não ensinar uma profissão para esses meninos, para essas mulheres? Por que a leitura? Silvia Castrillón [bibliotecária, autora e editora colombiana] diz que a leitura pode sim ser um jeito de melhorar as nossas condições de ser, de estar e de atuar no mundo. A gente pari leitores porque a gente acredita muito nisto”.

Bel ainda conta a história do garoto Otávio sentado no jardim da biblioteca, vestindo sua camiseta de super-homem. Ele, sentado ao lado dela, lia um gibi. Ela, o livro Mar de Manu, de Cidinha da Silva. “Ele vai parando de olhar o gibi, eu começo a ler para ele e ele fica com o livro. Esse desejo da leitura é o desejo das oportunidades que a gente vai criando, dos repertórios que a gente vai criando… Uma esperança nesse momento tão crítico”, finaliza Bel, sempre com a sua voz suave e suas histórias de esperança que acalmam o coração e nos convidam a olhar para frente.

Como nasce o desejo de ler

Outras Palavras

Cursos d'A Casa

[26/09] POESIA * CORPO * MEMÓRIA: encontro para educadores

[09/10] Cantar o jogo: escuta, criação e improvisação em voz

[01/10] Mediação de leitura e fruição estética Com Hanna Araújo

[22/10] Ateliê de voz: espaço para escutar, respirar e encontrar a voz própria, com Renata Gelamo

[20/09] Lançamento do livro “Vozes da Tradição”

[19/09] ENCONTRO ABERTO: POSSIBILIDADES DA NOVELA GRÁFICA, COM MARÍA LUQUE

[13/09] MAR, MAPA, MEMÓRIA: OFICINA DE POESIA E IMAGEM, COM ROSINHA

[08/10] Design é fluxo: fundamentos de teoria e prática, com Raquel Matsushita

[06/09] Apresentação musical – UMA

[26/09] MATERIALIDADE É LEITURA? com Camila Feltre e Cristiane Rogerio

[10/09] “Experiências de escuta em comum” com Helena Freire Weffort

[25/10] Infâncias: Raízes multiculturais infantis: histórias, memórias e a importância das biografias

[27/09] Infâncias: entrelaces entre mitologia, filosofia e espiritualidade

[07/10] Conto Tradicional: Viagem de Retorno ao País da Infância com Marco Haurélio – II módulo

Processos de Criação e Bordaduras com Eliane Tavelli

[02/09] CRIANDO NARRATIVAS VISUAIS: imersão Com ALINE ABREU

[30/08] À escrita: experimentos em ateliê e acompanhamento de projetos com Ângela Castelo Branco

[21/09] Sábado em Casa: Histórias à volta d’A Casa

[17/09] Gestos de Escrita

[02/08] Lançamento livro : Imagino Veneza de Julia Panadés

[21/09] Seminário: Educação e Democracia

[03/08] Bordar é um verbo destinatário

[04/08] Se os Tubarões Fossem Homens: conversa sobre Brecht, relações de poder e livro ilustrado

[22/07] Sessão de Narração de Histórias com Mirta Portillo

[18/07] Comemoração quatro anos d’A Casa Tombada!

[06/08] Quadros sonoros – criação musical a partir da imagem, com Tarita de Souza

[13/08] Ateliê de voz: espaço para escutar, respirar e encontrar a voz própria, com Renata Gelamo

[13/07] Encontro de Mulheres Indígenas

[19/07] Documentário “ECO – Cantos da Terra”

[15/07] A paixão pela palavra – Narrar, escrever e ler para pertencer ao mundo com Kiara Terra

[30/07] Oficina de Asalato, com Daniela Alarcon e Mauro Tanaka

[27/07] Bordado em Livro Sanfona com Priscilla Ballarin

[24/07] Materialidade e Leitura com Camila Feltre e Cristiane Rogerio

[26/07] Lançamento da 3ª Edição da Revista Linguará – C

[22/07] Oficina de Criação de Livro Ilustrado – Palavra e Imagem, Com Odilon Moraes e Carolina Moreyra

[18/09]Tramas e Fios com Ana Luísa Lacombe e Eliane Tavelli

[21/07] Palco aberto “Objetos na Performance Narrativa”

[21/07] Dom Quixote, o cavaleiro sonhador

[18/09] Tramas e Fios com Ana Luísa Lacombe e Eliane Tavelli

[15/07] As Chaves Para Contar Histórias com Ana Luísa Lacombe

[06/07] Workshop de ilustração em escultura de papel

[28/06] Show “Mensagem” de Heloisa Bonfanti

[12/09] Resolução de conflitos_Assembleias Dramatizadas e Formação de Grupo

[27/07] A arte de contar histórias na vida de todo dia

[04/06] Ateliê de Voz: espaço para escutar, respirar e encontrar a voz própria

[06/06] O papel da dimensão estética na Educação

[28/05] Vivência Circular: Potência, Poder e Punição

[05/05] Lançamento do livro “O Grande Pato”

[26/04] Uma conversa sobre poesia e pós-poesia com Carlito Azevedo

[29/04] O Objeto Livro: História e Contemporaneidade

[26/04] Sessão Cinema: “Impressão Minha”, documentário sobre publicações independentes com debate

[08/05] A paixão pela palavra – Narrar, escrever e ler para pertencer ao mundo com Kiara Terra

[20/07] II Ciclo “Objetos na Performance Narrativa”

Conto Tradicional: Viagem de Retorno ao País da Infância

[07/05] Cantar a Voz com Nani Barbosa e Renata Gelamo

[06/05] Histórias de Boca: Contos Tradicionais na Educação Infantil

Processos de Criação e Bordaduras

[05/09] Edição de livros – caminhos possíveis com Helô Beraldo

GRUPO DE ESTUDOS FILOSÓFICOS com Luiza Christov

Encontros com o Povo Verdadeiro com Angela Pappiani

Para narrar com imagens é preciso saber desenhar? Com Aline Abreu

Histórias e Culturas Afro-brasileiras e Indígenas na Educação – 2º sem/2019

Narração Artística: Caminhos para contar histórias em contexto urbano – 2ºsem/2019

O livro para a infância: processos de criação, circulação e mediação contemporâneos

Caminhada como método para a arte e educação

A vez e a voz das crianças: escutas antropológicas e poéticas das infâncias