Há livros em quase todos os cantos da casa, mas a maioria fica no escritório, que é o primeiro cômodo mais próximo da porta de entrada (ou saída) da casa. Reservei um dos nichos da estante para colocar os livros que salvaria do fogo, na quantidade limitada aos que eu conseguiria carregar de uma vez.
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Definições sempre me encantaram. Não aquelas que se encerram nos dicionários, mas as que viram as palavras de ponta-cabeça, vasculham o seu passado para inventar outros futuros para elas.
Durante um semestre, após o acolhimento e as conversas com o professor Júlio Groppa Aquino, passei a encarar o desafio de tentar transformar minhas aulas de História nesse espaço onde semanalmente os alunos parassem para escrever, mas uma escrita livre ou escrita-artista como venho aprendendo com Júlio e lendo também Sandra Mara Corazza. Passei a enxergar as aulas como esse lugar onde se respeita um dos pontos da ética foucaultiana (que aprendi também com o Júlio em referência a Deleuze): a dignidade de não falar pelos outros.
O que estas três palavras podiam nos dizer? Dizer sobre um curso, sobre um percurso de pensamento e sobre nós? Elas, as três palavras, me provocavam a pensar, mas ficaram aqui, comigo, e eu, carregando-as por onde ia.
Muito delicado falar sobre o assunto. Ontem mesmo, vendo sobre histórias de pessoas que perderam suas casas ou temerosas por perderem a vida de pessoas significativas, senti a delicadeza e o respeito necessários para colocar em poucas e cuidadosas palavras algo com tamanho alcance e devassidão.
Analisa com lupa o que merece ser visto, esse micromundo anônimo, desconhecido, que justifica toda a grandeza do universo, os mistérios da vida, a dor humana.
Meu espanto com os lampejos filosóficos não me abandonava. A única linha possível de ser seguida parecia o limiar. Estava sempre entre: na ciência, na arte, na filosofia. No sono, entre o sonho e a vigília. As horas eram objetos moldáveis, a noite virava dia que virava...
A cada refeição eu lia seu nome exótico. Um dia perguntei: posso ler esse livro? “Ah, ele é um tanto difícil para você.” Cresci com isso.
A falta.
A adaptação.
Puxa, agora não dá mais.
Tem que ser de outro jeito.
O que permanece?
Como não perder a textura dos encontros?
Os sonhos aparecem em turbilhões intensos, lembranças náufragas, enredadas em musgos. Os sonhos produzem realidades que irrompem em meio aos destroços.

