É tempo de inventar dicionários!, por Renata Penzani

por Renata Penzani

 

Definições sempre me encantaram. Não aquelas que se encerram nos dicionários, mas as que viram as palavras de ponta-cabeça, vasculham o seu passado para inventar outros futuros para elas. É por isso que os livros de definições têm um espaço cativo na minha biblioteca – a real e a imaginada. Não por aquilo que eles explicam – porque os bons nunca explicam nada -, mas por aquilo que eles ampliam. A gente até gosta de fingir que vivemos em um mundo do qual entendemos algumas coisas, mas que salto pode dar o pensamento quando se lembra que esse mundo respondido é só uma sombra desse outro que só existe nas interrogações. 

 

O livro de hoje é um desses exemplares raros que ajudam a manter o mundo em eterno estado de pergunta – coisa esta que as crianças sabem tão bem fazer e nós, adultos, esquecemos assim que começamos a abandonar a infância. “O dicionário do menino Andersen” foi publicado no Brasil pela editora SESI, e escrito por dois grandes nomes da literatura portuguesa – uma com os dois pés no livro para a infância, a ilustradora Madalena Matoso, e o outro com disposição suficiente para transitar por outros gêneros com tranquilidade, o escritor Gonçalo M. Tavares. 

 

Entrar nesse livro é sentir cheiro da infância mais perguntadeira. Ele sacode o pó das certezas mais antigas e coloca uma porção de caraminholas no lugar. E aqui vai um singelo palpite: quem chegar até o final com o mesmo número de neurônios é porque não prestou muita atenção na gravidade das perguntas. E aí convém que se volte ao começo. Por via das dúvidas, é recomendável voltar sempre ao começo, porque é comum que, no caminho das descobertas, a gente se distraia e tropece em uma verdade pronta.

 

Objetos, profissões, animais e até verbos ganham novas formas de ser, como a formiga, o acrobata, o armário. Se pessoa fosse, o dicionário ficaria muito chateado, porque nada do que ele já disse sobre isso tudo continua sendo verdade depois dessa leitura. Pelo menos, não a única verdade. 

 

A lata de lixo, por exemplo, deixa de ser o objeto onde jogamos as coisas fora, para virar o repositório do “passado das nossas alegrias”. “Por exemplo: pense nas cascas de uma laranja. Elas são ou não são os restos do prazer que você teve ao comer a laranja?”. O verbo “diminuir” também ganha toda uma outra existência, e passa a ser, paradoxalmente, a possibilidade de grandeza. “Diminuir o barulho é aumentar o silêncio. Diminuir a luz é aumentar a escuridão. Portanto, diminuir uma coisa é aumentar a outra”. A banheira que ganhou a chance de ser engraçada? “A banheira é uma piscina egoísta, porque só dá para uma ou duas crianças”.

 

Se o Otto Lara Resende estava certo quando dizia que só as crianças e os poetas têm olhos atentos para o espetáculo do mundo”, esse livro é o gesto grandioso do artista que antecede a salva de palmas. Exatamente como o fazem as crianças quando chamam a nossa atenção para algo extraordinário que elas só não descobriram sozinhas porque sempre esteve ali, mas que finalmente foi visto e percebido como coisa de se reparar de perto.

 

“Dicionário do menino Andersen”, de Gonçalo M. Tavares

Editora SESI-SP, 2016

 

 

 

 

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