Falemos de casas, do sagaz exercício de um poder
tão firme e silencioso como só houve
no tempo mais antigo.
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Após um ano intenso, em que a Casa se desdobrou e não tivemos escolha senão acompanhá-la, lembramos desse texto do nosso querido sempre-presente Dorival Teixeira (pai da Ângela) recebido no dia da inauguração da casa, em 18 de junho 2015.
O que pode caber numa casa?
Cabe mesa, cadeira, cama, banheira
Cabe fogão, sofá, louça, batedeira
Aqui, as mesas procuram as janelas. Mudam sempre de lugar. E o corpo é convidado a sentar o olhar para fora. Quem chega, chega sempre pela janela. Em três ou quatro delas a renda das árvores é o que se vê. Em outras, são pedaços de paredes, que não chegam a ocupar o pensamento. Sobram espaços. Para estar na altura dos intervalos, entre o ir e vir dos sentidos. Ora em sombra, ora em sol.
A maçaneta da sala de cima está quebrada. Não abre nem fecha mais. Isso porque a porta foi arrombada e ainda não a consertamos. Há mais de dois meses. E não deixamos de tocá-la um só dia. Fechamos a porta que não fecha e abrimos a porta que não abre. Não é de substituição que se trata, mas de convívio.
Escrever bate à porta. Em algum canto da casa, -alguém-, a madeira do chão, o ar gelado, o café velho, escrevem. Basta o ramo de flor seca repousar em cima da mesa. Ali, onde ninguém mais poderia entrar. Ali, onde a decisão de cultivar as mãos fora tomada pelo jardim. E abrir-se era a única possibilidade.

