“Por que minha tia foi internada no hospício?
Porque estamos soltos, ora” — responde o pai.
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Quando eu me deparei com a necessidade de escrita do meu projeto de TCC do curso “O livro para a infância”, eu sabia apenas que queria trabalhar com duas coisas: a mediação de leitura e o corpo. Sim, pois eu sou bailarina e também professora de português, mas sempre me vi diante do dilema: como fazer esses dois universos convergirem?
Já pensou num livro de uma folha só?
O poeta e artista campineiro João Proteti, pensou. E foi além.
Na terceira postagem da série onilíricos, Tati Fraga escreve o sonho com uma cobra vermelha nas mãos.
— Qualquer vírgula passa a ser suspeita quando um escritor, que desde os 11 anos SABIA que queria ser escritor, declara: [sic] “não sentia nenhum desejo ou necessidade de escrever o que quer que fosse”.
Na antiguidade a embriaguez era o signo da vertigem sagrada que coroava o homem com a luminosidade diáfana do eterno, o drogado era investido de um êxtase profético que o colocava no epicentro do culto a transmissibilidade da palavra, isto é, o enigma da palavra migratória. A embriaguez era um estado mágico em que as formas divinas assumiam a coloração dos fenômenos humanos.
No final do ano passado (o fatídico ano de 2020), com uma turma “pioneira”, em parceria com A Casa Tombada e a educadora Camila Feltre, comecei a construção de uma espécie de “laboratório da fantasia” — não para fugir da realidade, embora isso, para alguns, possa soar como uma proposta bem atraente — mas, ao contrário, para tomar consciência das potencialidades estéticas do pensar/fazer, de como construir coisas novas por meio de “ideias estéticas”: formas criativas de narrar, de provocar o riso, de olhar para os objetos, para as pessoas, seus hábitos, peripécias e outras balbúrdias.
Tal paisagista, Natalia Barros, observa o comportamento dos fenômenos naturais dando voz à escuta do mundo. Das experiências intensas e atuações intensivas de Natalia performando a promessa da oralidade e musicalidade da poesia, palavras foram esculpidas, entoadas, modulando melodias, modelando paisagens sonoras em formas, ritmos, espessuras, dinâmicas. As vozes do mundo na voz da poeta são caligrafadas no ar, feito nuvens ornamentais, nuvens eternamente mutantes.
Esse amor começou com a minha livreira preferida de cupido. Chegou pelo correio, com o já tradicional embrulho de tecido e a flor de crochê da Biblioteca Amarela.
Eu tinha acabado de me decretar em férias. Sentei no meu lugar de ler, sem relógio nem celular.
Será que ler palavras escritas com a caligrafia, que é própria de cada pessoa, é a mesma coisa que ler palavras digitadas, que estão quase sempre no mesmo formato e que sem assinatura nem sequer sabemos quem escreveu? Como professora há quase 20 anos, muitas vezes recebi atividades sem nomes e muitas vezes as identifiquei pela letra já conhecida por mim daqueles/as estudantes. Trabalhos digitados, sem nome, não permitem isso…

