O som dos anéis de Saturno, por Liliana Pardini

por Liliana Pardini

 

Recebi da amiga: “Você tem que ler”.

Por que eu tenho que ler uma história de uma menina que era levada pela mãe para visitar suas duas tias no hospício?

“Por que minha tia foi internada no hospício?

Porque estamos soltos, ora” — responde o pai.

Quais verdades os loucos vêem que assustam tanto? Os loucos e sua lucidez embaraçosa.

A menina com M maiúsculo tinha coragem de ver, mas ficou com tanto medo de ser “controlada” (ah, as aspas…) como as tias, que se voltou para dentro. Pernas para dentro, olhos para dentro. Um olho via o passado, um olho via o futuro.

O médico quis corrigir com uma operação. Afinal, a aparência de uma menina deve ser sempre agradável, mesmo que doa, mesmo que sangre.

Adapte-se, mulher. O que é cortar um tantinho do calcanhar para caber no sapato em que o príncipe se fixou? Afinal, você já sangra todo mês e tem a vagina certinha para o pênis dele. Ou não?

A tia louca sussurra que deve se decidir entre ser chata ou ficar chateada. “Isso antes de me tornar mulher, porque o mundo dos adultos é assim, feito de escolhas definitivas.”

Suas dúvidas lúcidas escapavam em redações escolares: “ Fred Astaire não é um deus? Posso rezar para o Fred Astaire? Por que preciso depilar as partes íntimas quando crescer? Por que preciso ter filhos e me casar? Honestidade é melhor que bondade?”. Colecionava advertências da professora cujos seios subiam até o teto quando se enraivecia.

Fiz minha própria lista de resoluções na última página em branco do livro, que provavelmente também ganharia uma advertência:

 

  • Proibir a presença de padres no momento da minha morte.
  • Reescrever a minha frase preferida do autor preferido substituindo Homem por Mulher.
  • Ter uma pantera de estimação.
  • Desfazer da madrinha que me trazia presentes caros que não combinavam comigo e absolutamente nada para os meus irmãos.
  • Escolher para quem rezar.
  • Não possuir as coisas para que elas possam continuar a existir.
  • Treinar o olhar da primeira vez.
  • Agradecer a amiga que me deu esse vórtice.

Afinal, “tudo o que queremos fazer é dançar.”

 

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Impactadas com o livro, a amiga que me deu a ler, Daniela Galanti, e eu entrevistamos a autora Priscila Gontijo.

Ela conta que escreveu o que hoje é o primeiro capítulo do livro — Éguas Íberas — há muito tempo. Mostrou para o namorado da época e perguntou: o que você acha que é? Um conto, uma crônica? Ele disse não saber. As éguas ficaram no escuro da gaveta, até que foram soltas  durante uma oficina de escrita com Marcelino Freire, que amou o texto. Uma psicanalista do grupo afirmou: nunca vi alguém escrever de uma forma tão humana sobre os pacientes psiquiátricos.

Foi então que a autora resolveu se relacionar com suas éguas, com calma, em meio a tantos outros trabalhos que exigiam ser feitos, “só quem sobrevive da escrita no Brasil sabem quantos processos simultâneos precisam acontecer”.

Quando elas estavam mais crescidas, fortes e múltiplas, mostrou para a interlocutora de sua confiança, Nanete Neves. Foi ela quem apontou a voz da narradora menina: “você encontrou o mais difícil, a voz da narradora, investe nela.”

E durante o mestrado com Annita Costa Malufe, veio a ideia de alternar duas vozes, o que tirou a linearidade do texto, costurado agora de acordo com o seu tema, a loucura, que nunca é linear.

Inspirada em Nelson Rodrigues, mesclou 3 planos: memória, alucinação e realidade. Como num jogo, estabeleceu estes parâmetros “para poder voar”. Gostei muito de ouvir sobre isso. A técnica não veio antes, não veio estabelecer o que as éguas seriam. Elas nasceram livres, mas poderiam morrer de liberdade, como diz o poeta Gide. A técnica veio depois, para proporcionar o galope.

Priscila disse que de fato frequentou manicômios quando criança — “criação é memória” — levada pela mãe para visitar suas tias, uma forma de conhecer a vida, dizia ela. A família é de origem mineira, onde os dogmas da religião católica tem raizes grossas e profundas, que reprimem as mulheres e estrangulam éguas selvagens.

Contando sobre o que há de sua vida no livro, comentou que fez uma oficina de teatro, ainda adolescente, com os ingleses do Royal Court aqui no Brasil, no SESI, um workshop do núcleo de dramaturgia, e lá ouviu uma frase que a marcou muito: O drama acontece quando uso algo da minha vida e coloco a pergunta  “E se tomasse outro rumo?” 

“Acho muito difícil não partir de algo íntimo, porque acho que vou estar forjando algo, que vai ser de fora para dentro, e eu quero que seja de verdade, mas ao mesmo tempo, quando vou escrever eu quero me libertar daquilo, porque não quero escrever autobiografia, eu quero que os personagens apareçam”.

E os personagens apareceram n’O som dos anéis de Saturno, muito humanos, e fazem uma visita à loucura do leitor.

 

 

O som dos anéis de Saturno

Priscila Gontijo

Editora 7 letras

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