“Aonde for minha escrita, vou atrás”, por Helô Beraldo

 

por Helô Beraldo

 

— Qualquer vírgula passa a ser suspeita quando um escritor, que desde os 11 anos SABIA que queria ser escritor, declara: [sic] “não sentia nenhum desejo ou necessidade de escrever o que quer que fosse”.

— Quem é esse sujeito? Puxa a ficha desse contraditor!

– Está aí, veja!

 

 

— Disse isso e ainda ganhou esses prêmios todos? Quantos livros ele publicou?

— Ah, por volta de 29, 30… Escreveu livros de contos, romances, não ficção…

— E por que ele está na sua mira? Por causa dessa declaração paradoxal?

— E você acha pouco? É por isso, mas não só. Quero compartilhar com você um livro de V.S. Naipaul que li ano passado: Ler e escrever, publicado pela Editora Âyiné em 2017. Conta com um ensaio que dá título ao livro, escrito em 2000, e também com o discurso que o autor fez na cerimônia do Nobel em 2001, quando ganhou o prêmio por seu trabalho literário. Como sei que se interessa pela escrita e pela leitura, pelas experiências dos outros na escrita, como eu, sei que vai se identificar com várias coisas que ele escreve lá.

Por exemplo, logo no começo do ensaio, Naipaul dispara aquela frase que citei antes. Diz que sua família até o incentivava a escrever, e demonstrou isso presenteando-o com uma caneta-tinteiro, um frasco de tinta Waterman e cadernos pautados novos, com margens (dos quais ele se orgulhava e gostava muito, apesar de não usá-los). Depois, diz que, na escola, um de seus professores tentava despertar o gosto pela leitura nas crianças lendo para elas Vinte mil léguas submarinas, livro de Júlio Verne. Mas o quê! Para Naipaul, esse momento era ótimo só porque não tinha que fazer nada e ainda afirmou, lá no livro, categoricamente, que não tinha lembrança nenhuma do que foi lido naquele tempo.

— Bom, não gostava de escrever, nem de ler, nem de ouvir histórias. Não tinha uma vocação para a escrita bem determinada desde pequeno, a não ser o saber querer ser escritor… E como se descobriu escritor? Hum, suspeito que devia ter alguém na família dele de quem puxou esse gosto e esse querer aí!

— Bom, o pai era jornalista, autodidata. Lia vários livros ao mesmo tempo sem se interessar nem pela narrativa, nem pelo argumento da história. A ele, só interessava conhecer as qualidades especiais de um autor. Então, lia para o filho pequenos trechos que lhe chamavam a atenção, o que apelidou de “pequenas explosões”.

— E de que tipos de explosões estamos falando?

— Essas explosões que fazem as pessoas pararem, pensarem e fazerem associações com suas próprias experiências de vida. Essas coisas que nos despertam a curiosidade de conhecer outras experiências e ampliam nossa visão do mundo, que fica muito maior do que aquilo que nos rodeia.

— Por essas explosões ele não pode ser culpado! Que maravilha! Escuta, e o que mais você conheceu sobre o ler e o escrever que Naipaul praticava? O que mais chamou a sua atenção nesse livro? Quando ele se considerou um escritor de verdade? Me conta!

— Olha, você tem que ler o livro, mas vou resumir o que pode inspirá-la mais.

Para falar um pouco do processo de escrita dele e de como ele se reconheceu escritor, no ensaio, há um trecho em que ele conta que sua vida imaginativa, durante os anos de estudo duro, se passara no cinema, não nos livros. Que ele não sentia aquele impulso da escrita que tanto ouvia falar. Que sentia uma ausência de escrita dentro de si, ficava nervoso, mas tinha a certeza de que essa ausência sumiria uma hora, com um passe de mágica, e, então, os livros seriam escritos.

Para essa mágica acontecer, disse que trouxe a realidade mais para perto dele, andou pelas ruas da cidade, viveu no campo, viajou, traduziu livros. Procurou e retraçou caminhos, reconheceu o que o afligia e o bloqueava, e abriu-se para receber a matéria-prima de sua escrita: o tema, o tom, a voz. Abriu-se, teve CORAGEM, e reconheceu-se um escritor que, motivado pelo desejo de escrever um livro, usava a intuição para escolher ideias e matérias-primas. Chamava isso de “o mistério da escrita” e não sabia para onde esse mistério o levaria. Escrever cada livro, para ele, era uma maneira de ampliar o aprendizado e a sensibilidade.

— Nossa, intuição, mágica, conhecer-se, dar-se para o mundo… Para admitir isso, é preciso CORAGEM.

— Pois é, cada um tem um meio e um jeito de se colocar no mundo. Na escrita, a rigidez pode paralisar. Pela escrita, é bom se colocar inteira, né? O corpo todo. Não tem coisas que escrevemos e que nem reconhecemos como nossas? Um outro eu surge, mas somos nós mesmas. Nossos valores, o que temos de pior e de melhor estão ali, nas palavras.

Como já puxamos na ficha de Naipaul, ele deixou uma obra reconhecida com o Prêmio Nobel de Literatura, em 2001. Em seu discurso, uma frase desponta como a maior generosidade que a escrita e o escritor podem oferecer aos leitores: “Tudo de valor sobre mim está em meus livros”. E tem outra: “Aonde for minha escrita, vou atrás”. Para mim, foi aí que ele se eternizou.

— Caramba, arrasou! Quanta coisa a pensar, a escrever…

— Olha, a capa do livro é esta aqui:

 

 

Acima de tudo, esses textos nos convidam a pensarmos sobre nossos processos de escrita, sobre como nos colocamos no mundo. Depois que o ler, vamos conversar?

 

 

 

 

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