Nuvens caligráficas à escuta do mundo – sobre, a partir e com a poética de Natalia Barros, por Edith Derdyk

 

por Edith Derdyk

 

“as nuvens seguiram condensando lembranças pluviais” (1)

 

Tal paisagista, Natalia Barros, observa o comportamento dos fenômenos naturais dando voz à escuta do mundo. Das experiências intensas e atuações intensivas de Natalia performando a promessa da oralidade e musicalidade da poesia, palavras foram esculpidas, entoadas, modulando melodias, modelando paisagens sonoras em formas, ritmos, espessuras, dinâmicas. As vozes do mundo na voz da poeta são caligrafadas no ar, feito nuvens ornamentais, nuvens eternamente mutantes.

 

Aqui está o poema O Maior Adeus  – escutem:  https://youtu.be/RBGSwXOsBks, de onde foi extraído o verso acima – apenas escutem a leitura compartilhada, cumprindo a vocação da oralidade da palavra em estado poético tal como enunciada por Octavio Paz  o poema é um caracol onde ressoa a música do mundo (2)

 

Tudo não passa de

Nuvens ornamentais

Sob o sol do acaso

(3)

 

A recorrência da presença das ‘palavras-coisas’ em seus dois livros de poemas – Caligrafias e Nuvens Ornamentais -, tais como nuvens água pássaros fogo terra e referências a animais, minerais, vegetais, enfim, a alusão aos viventes – visíveis e invisíveis – tornam-se dispositivos metafóricos e metonímicos, ao mesmo tempo para agarrar os modos passageiros das matérias, dada a observação atenta da paisagista multiversa em relação ao estados dos fenômenos naturais, tencionados para nossa condição e condução humana.

A voz dos poemas se deslocam entre a objetividade da ‘coisa em si’ e a voz poética de um ‘eu’ subjetivamente lírico,  afetivamente romântico ao avesso. Tais as caligrafias do efêmero: da idealização plana e chapada para a imanência das presenças em mil relevos e profundidades. Sim, as palavras adquirem vitamina poética e, por que não chamânica (xamânicas + chamado + chama ).

 

Ouço o chamado, reconheço-o pelo ardor da chama

(4)

 

há quem chame porque sim

há quem chame porque não

há quem não chame (5)

 

A (e)terna busca do corpo da palavra na clivagem rotacional do estado poético, dita bendita de forma muito simples, usual, sem o ornamento no sentido do decoro supérfluo, mas como elegia e elogia à vida da poesia em sua prática diária  – atualmente tão essencial para a arte de viver, faz e refaz em sua incessante movimentação.

Sim aos sins –  o maior adeus, cumpre o destino da beleza desejante de libertar o mundo das palavras que asfixiam, afinal, um ato:

a poesia é o pulo do gato

sem o pulo

sem o gato    

(6)

 

A tarefa da paisagista – recuperar o mundo da delicadeza em meio à barbárie posta, extravasando abundância – pessoas querem ser a sua natureza (7):   escovar a palavra tal como revolver a terra, devolver a palavra à semente, retorcer o mundo para que a palavra floresça.

Natalia Barros pratica a jardinagem composta em seu ofício de escrita da escuta ao mundo! Seguem links para serem ouvividos em parcerias tão preciosas: 

 

https://www.youtube.com/watch?v=_2QdCzO0HPI  Cronópios

https://www.youtube.com/watch?v=IgN8pHxLrpw  Show Caligrafias

https://www.youtube.com/watch?v=EX-RsN0Womc Landscape 

 

notas:

1.Natalia Barros. Caligrafias in: extraído do poema  O Maior Adeus. Editora Ofício, SP. 2012

2. Octavio Paz. O Arco e a lira in: Poesia e Poema. Editora Nova Fronteira,RJ.1982

3. Natalia Barros. Nuvens Ornamentais. Selo Demônio Negro, SP. 2017

4. Natalia Barros. Caligrafias in: extraído do poema  O Chamado. Editora Ofício, SP. 2012 

5. Natalia Barros. Caligrafias in: página77. Editora Ofício, SP. 2012 

6. Natalia Barros. Caligrafias in: Um Ato. Editora Ofício, SP. 2012 

7. Natalia Barros. Caligrafias in: página24. Editora Ofício, SP. 2012 

 

As imagens são de Natalia Barros, colhidas do livro Caligrafias.

 

 

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