A cada refeição eu lia seu nome exótico. Um dia perguntei: posso ler esse livro? “Ah, ele é um tanto difícil para você.” Cresci com isso.
Livros à Mão
Mas, diante de uma ameaça global tão invisível quanto concreta, o monstro da pandemia vive onde? Nas necropolíticas que abrem e fecham caixões como quem gira uma chave em uma fechadura? No colega de trabalho que esqueceu de novo de tirar o sapato antes de entrar no escritório?
Desde sempre me atraem livros sobre a impermanência, para não dizer a morte. Sem ter vivenciado nenhum trauma ou perda prematura, sem estar doente ou ter um doente terminal na família, li bastante sobre luto e fiz uma pequena coleção de livros ilustrados sobre a morte.
Um livro de produção textual da antiga oitava série. Ele era diferente de todos, com um formato menor, uma capa com fundo amarelo-escuro e grafismos preto, vermelho e azul. Como eu amava aquele livro! Foi o único livro didático que recebi e folheei de cabo a rabo, ansiosa por querer saber o que vinha depois, o que vinha em seguida – o que vem por último?
A primeira vez que me encontrei com esse livro ele estava pendurado por um fio, no estande da editora polonesa, na feira de livros de Bologna.
Adoro admirar as ilustrações e sentir o formato de um livro, mas o que realmente me captura primeiro, desde pequena, é o texto.
Exercer a liberdade de desviar dele me interessa mais (quando posso), e por isso fico achando que vai interessar mais aos outros também. Resolvi falar dos livros que conversam comigo, com os quais eu criei intimidades, que me escutam e me explicam; aqueles que todos os dias olham para mim da estante, meio sujos e usados: vividos.
Lançado em 2006, o romance Um defeito de cor de Ana Maria Gonçalves não é um livro fácil de ter-se em mãos e, ao mesmo tempo, é difícil soltá-lo. Somos captadEs antes mesmo de entrar na narrativa.
Segurar esse livro com caligrafia, rasuras e desenhos íntimos de Frida me excitou ao mesmo tempo que me constrangeu – quem escreve diários sabe da privacidade que se espera dessas páginas.
O coração do livro é abraçado por suas capas. Ali, naquela materialidade tecnicamente chamada miolo (mas é onde está o coração!), há uma experiência de escrita, de vida, que não pode ser repetida, mas pode, infinitas vezes, ser lida, sentida, vivida, recontada.
Olhei para a estante e encontrei os que são pegos com reverência, conservados em suas embalagens originais, invejados pelos outros livros devorados, grifados, grafados e de orelhas dobradas, coitados. A Casa da vó - por LiLiana Pardini.

