Ser monstro para seguir vivo, por Renata Penzani

por Renata Penzani

 

 

Sophia de Mello Breyner escreveu que, “ por mais bela que seja cada coisa/ tem sempre um monstro em si, suspenso “. Esse verso sempre mexeu em alguma coisa importante em mim que eu ainda não consegui nomear. Eu que adoro livros sobre monstros, eu que tento colecionar histórias sobre eles, para quem sabe aprender a lidar melhor com os meus.

 

Há muitos deles na literatura; os monstros, desconfio que sejam incontáveis. Na literatura para a infância, mais ainda. Como adivinhar quando foi que surgiram? Se apareceram junto com o fogo, ao redor da fogueira, em uma noite de espantar o frio: quem sabe? Eu não sei. As perguntas são retóricas como muitas.

 

O livro de hoje é um inventário deles. É o “ Pequeno manual de monstros caseiros ” (o título original, de 1997, é “ A manual of house monster s”), de Stanislav Marijanovic, publicado no Brasil pela Companhia das Letrinhas em 2006. O ilustrador e escritor da Bósnia Herzegovina é conhecido por representar monstros em sua obra, como símbolos do desconhecido que fascina os pequenos e os adultos com a sorte de não soltar a mão da criança que foram.

 

A brincadeira do livro é oferecer para as crianças (e também para quem convive com elas e jura não ter mais monstros embaixo da cama), uma espécie de bula dos tipos de monstros existentes, quais são seus poderes e fraquezas. É típico da literatura feita para a infância escolher rir daquilo que a gente não entende nunca, e essa é metade da beleza. A outra metade é deixar para o leitor o silêncio necessário para que ele preencha com suas próprias experiências, e por isso amplie as possibilidades da história. Eis aqui alguns monstros catalogados pelo livro. (Não vale chorar de rir, mas, se quiser, pode)

 

 

 

 

 

Por que este, e não outro, para falar de monstros? O motivo é arbitrário e aleatório como sempre é fazer uma escolha: esse livro dormiu comigo dois dias seguidos, fiquei relendo e tentando rir do que já tinha rido antes, mas agora só conseguia enxergar outras metáforas desses medos pandêmicos que nos colocam outra vez com medo do escuro. Mas também – e talvez principalmente – pela simplicidade e pela honestidade de assumir que, já que nunca conheceremos todas as criaturas horripilantes que o universo pode conter, que pelo menos a gente tenha a cortesia de guardar um manual que nos ensine a identificá-los de vez em quando. Quem identifica, pelo menos não ignora. Se não tivéssemos tantos monstros ignorados por segundo na História da humanidade, onde estaríamos agora?

 

Onde vivem os monstros, se não dentro de uma história que não tem começo, nem meio e nem fim? Essa é a nossa história com os monstros: só podemos colecioná-los, nunca antecipar o que vão fazer, de onde vão surgir ou que partes de nós eles vão morder. Podemos até arriscar nos familiarizarmos com eles, mas ainda assim é difícil que consigamos compreender seus motivos de mostrar os dentes.

 

O jornal literário Suplemento Pernambuco de agosto é justamente sobre eles, os monstros. O texto de capa faz uma retrospectiva sociohistórica de como o ser humano se relaciona com a figura do monstro, e de como vemos neles a nossa própria metáfora de transformação, já que tudo o que somos pode vir a não ser mais no minuto seguinte. “É preciso ser monstro para seguir vivo; ser monstro nos torna mortais”, diz Priscila Campos, autora do artigo. Para ela, assumir os nossos monstros é aceitar que não temos o controle de nada, ou seja, é nos reconhecermos humanos.

 

De tudo, entre livro e artigo, o que pude observar de mais interessante foi que a perspectiva sobre o que é considerado monstruoso ou não depende do recorte cultural e político. O monstro está também em um campo de disputa narrativa, como tudo no mundo. Podemos rir deles, fugir, gritar, negar, apontar o dedo para o monstro do outro quando na verdade ele está no meu espelho toda manhã. Podemos fazer de tudo com os monstros, menos passar pela vida sem esbarrar neles.

 

Mas, diante de uma ameaça global tão invisível quanto concreta, o monstro da pandemia vive onde? Nas necropolíticas que abrem e fecham caixões como quem gira uma chave em uma fechadura? No colega de trabalho que esqueceu de novo de tirar o sapato antes de entrar no escritório? Na porção da população que escolhe estar na rua, sem ser por necessidade de sobrevivência? Naquele que abre o portão das escolas no meio da crise sanitária do século? Quem são os monstros mais reais com que temos de lidar agora? Será que eles teriam a bondade de dar trégua para os nossos monstros imaginários, ou é só uma questão de assistirmos que eles se acumulem e se potencializem em escala geométrica?

 

Uma amiga me contou recentemente dos pesadelos da filha de três anos, que agora não sonha mais com o bicho-papão, mas com uma bolota cheia de pontas. Essas representações da ameaça mundial aparecem nos desenhos parecidos com peixes baiacu, mas na verdade são versões coloridas do coronavírus que já protagoniza até livros infantis. Se são as crianças que nos contam, é oficial, então: os monstros mudaram. Os tempos é que não. Onde vivem os monstros, afinal? Seria preciso refazer a pergunta mil vezes, e enveredar por todas as florestas aonde o Max do Maurice Sendak foi para fugir de casa, e ainda assim só chegaríamos talvez à recorrente ameaça que todo monstro contém em si: “olha que eu te como!”. Pois então, olhai-nos.

 

“Pequeno manual de monstros caseiros”, de Stanislav Marijanovic Companhia das Letrinhas, 1998

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