Prosear é um trem bom, né, minha filha?, por Helô Beraldo

por Helô Beraldo

 

O coração do livro é abraçado por suas capas. Ali, naquela materialidade tecnicamente chamada miolo (mas é onde está o coração!), há uma experiência de escrita, de vida, que não pode ser repetida, mas pode, infinitas vezes, ser lida, sentida, vivida, recontada.

 

Abro o livro ansiosa pela conversa que vai se iniciar. Você também? Essa é a ponte do meu encontro com o outro, com quem o escreveu, e o lendo, decifrando as palavras, inicio uma relação com a materialidade dessa escrita e me questiono, me transporto para um mundo que desconheço, mas que generosamente me é dado a conhecer. Assim, me transformo. Como esse encontro acontece com você?

 

Certo dia, os Correios trouxeram o novo habitante de nossa casa, o livro Para criar passarinho, de Bartolomeu Campos de Queirós. Com projeto gráfico e ilustrações de Guto Lacaz, havia sido publicado em nova roupagem pela Global editora, de São Paulo (SP), em 2004. Arranquei o plástico transparente empoeirado e toquei aquela capa vermelha, composta por um clichê de dois naipes do baralho, ouros e espadas. Qual era esse o jogo em que eu estava prestes a embarcar? Folheei o livro para ter pistas. Do projeto gráfico, das ilustrações geométricas estilo “Descubra o que está diferente?”, das cores vibrantes, dos blocos de texto (entrelinhas e corpo das fontes enormes), ficou o lúdico.

 

Fecho o livro e o abro novamente. Olho e frontispício seguidos de uma dupla de páginas para a dedicatória: “A JACQUES PRÉVERT”, em letras maiúsculas impressas sobre um amarelo solar. Então, está aí a beleza: vou presenciar e participar de uma conversa entre Bartô e Prévert; Para criar passarinho e “Para fazer um retrato de um pássaro”. Procuro na estante o livro Paroles, de Jacques Prévert. Lá está no índice remissivo, marcado com uma estrelinha, “Pour faire le portrait d’un oiseau”, página 155, edição Folio, número 762. Fui transportada para o tempo da memória. Vou ler, sentir, viver, conversar e recontar essas escritas.

Para Prévert, a receita é a de desenhar um passarinho. Para Bartô, é a de criar, e de criar bem, um passarinho. A criação está em ambos. A liberdade. A beleza. O silêncio. O tempo da e para a solidão. O repouso. O espantar-se com o belo, com o simples. O céu como lar. O ar. As penas. A intimidade com o vazio, com o nada. O apropriar-se das asas, experimentá-las, e não deixar que ninguém pise nelas. A liberdade e a experimentação, sempre.

 

Nenhum espaço é demais para os voos. Muito menos para os repousos da alma. Esse livro de Bartô é um refúgio, um aconchego no prosear com poesia, com poetas, com quem quer compartilhar beleza. Essa conversa que tive com Bartô e, de tabela, com Prévert, me transportou para a infância, a juventude, me levou para a fantasia, para o que estava escondido em minha própria vida, neste agora, neste 2020, e não há outra coisa que eu queira fazer senão dividir essa experiência, essa prosa, com você.

 

Cursos d'A Casa

[28/10] A potência da argila na vivência infantil – com Débora Amaral

[01/10] A linha e seus papéis: indício, desígnio, anotação e acontecimento / 3ª turma – com Edith Derdyk

[08/09] Oficina de Criação de Livro Ilustrado – palavra e imagem, com Odilon Moraes e Carolina Moreyra

[02/09] Poesia como ato político – com André Gravatá / 2ª Turma

[02/09] Colagem: recorte a vida e transforme em arte – com Sofia Lemos / módulo II

[02/09] Sobre o animar e o animar-se – com Luiza Christov

[01/09] Livro de Artista e suas extensões gramaticais – curso de extensão universitária, coordenação de Edith Derdyk

[28/08] Contar histórias, reinventar mundos – com Emilie Andrade / 2ª turma

[28/08] Direito à Preguiça: Sobre Imaginar Narrativas do Repouso no Cotidiano – com Giuliano Tierno

[12/08] Encontros com o Povo Verdadeiro – Angela Pappiani

[08/08] Oficina de colagem: Álbum de família – com Sofia Lemos

[04/08] Mergulho na história: Branca de Neve e Cinderela – com Ana Luísa Lacombe

[03/08] Narração Artística: Conversas sobre os paradoxos no ato de contar histórias nas cidades – com Giuliano Tierno

[25/07] Ateliê de vídeo para contar histórias – com Yohana Ciotti

[24/07] Jornada de mulheres heroicas: histórias que precisamos contar – com Yohana Ciotti

[30/07] A Escritura do Desastre – com João Gomes

[21/07] Narrativas Adormecidas: O rito de passagem das fotografias – com Sandra Lessa