[Livros à mão] Com Cecília, por Helô Beraldo

por Helô Beraldo (@heloberaldo / @baleialivros)

 

Um livro de produção textual da antiga oitava série. Ele era diferente de todos, com um formato menor, uma capa com fundo amarelo-escuro e grafismos preto, vermelho e azul.  Como eu amava aquele livro! Foi o único livro didático que recebi e folheei de cabo a rabo, ansiosa por querer saber o que vinha depois, o que vinha em seguida – o que vem por último? Não, não foi assim que o explorei, confesso. Comecei a folheá-lo do fim para o início, um costume que tenho, cultivo e que revela certa ansiedade.

 

Lá pelo meio desse livro, em uma das páginas havia impressa, em preto e branco, uma foto de perfil de uma mulher. O sorriso dela era tão largo que se desviava do ângulo em que foi colocado e pulava para os olhos. Ao lado da imagem, um poema e versos que sempre me acompanham: “Eu canto porque o instante existe / […] Não sou alegre nem sou triste: / sou poeta”. Era o motivo de um querer e de um ser o que pode ser. Nem lá, nem cá: no instante. Em março de 1991, esse livro tão querido me apresentou à figura e a algumas palavras de Cecília Meireles.

 

Escolhi cursar Letras na faculdade por causa da língua. Nem me lembrava de que existia poesia. Meu sentir em 1998 estava exato, era uma equação com resultado certo. Até que, para o trabalho final de um curso, foi-me dada a missão de elaborar uma antologia de poesia. Passei tardes e tardes na biblioteca, mergulhada em Carlos Drummond, Murilo Mendes, Blaise Cendras, Paul Éluard, Mário de Andrade, Manuel Bandeira e Cecília Meireles. Nos sete anos de intervalo entre o acontecimento do livro de redação e o do fazer o primeiro livro da minha vida, fui buscar outras palavras de Cecília. E ela explodiu minha cabeça: era o universo, o céu, o sol, a lua e as estrelas. Era o azul. Era a impermanência da vida representada naquele sorriso que sabia observar a vida. Sabia-se finita, apesar de imensa, e só. Redescobri uma amiga e confidente.

 

Passaram-se, então, vinte e um anos. Parece que faz uma década e meia de hoje, dia 12 de agosto de 2020, até 14 de setembro de 2019. No entanto, faz mais de 100 mil vidas e apenas onze meses que, em um momento de vazio profissional, de desilusão rigorosa, fui querer ouvir quem havia mergulhado nas profundezas da poesia de Cecília e saber como foi pensada a construção de um livro que é uma homenagem à poeta: O mar de Cecília, de Rosinha, publicado pela Editora do Brasil em 2017. Rosinha, a autora, nos mostrou as ilustrações originais, nos contou como foi seu processo criativo (como pensou o texto, as ilustrações, o formato do livro), nos confidenciou o papel de Cecília na vida dela. Toda a história da produção desse livro diz da história da autora e é corajosa e íntima.

 

A experiência que tive naquele encontro e, depois, quando folheei esse livro-arte pela primeira vez foi mais uma alegria que Cecília me deu. O livro está aqui, bem à mão, remédio para os momentos em que a desilusão no humano corrói. E ele sempre me alegra, porque mostra a coragem do mergulho de Rosinha na poesia de Cecília e a coragem da Editora do Brasil de fazer um livro que é poesia em imagem e texto. Em nosso país, uma editora publicar esse livro-arte e compor uma coleção com mais outros tantos livros-arte, só demonstra o amor pelo fazer livros e me enche de esperança. Quero folhear, do fim ao início, de trás para frente, muitos outros títulos dessa coleção, e fico já imaginando quando será minha próxima conversa com Cecília, de quem me despeço roubando suas palavras: “[…] E nessas letras tão pequenas / o universo inteiro perdura. / E o tempo suspira na altura // por eternidades serenas.”.

 

 

 

referência: O mar de Cecília, de Rosinha (@rosinhailustra), Editora do Brasil, 2017

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