Conseguir este livro, Cartas a Lúcilio, foi difícil. Queria a mesma edição que foi citada no Atlas do Corpo e da Imaginação, do Gonçalo M. Tavares, que é o meu “livro de areia”, um livro infinito. Numa viagem a Lisboa, procurei em livrarias e na própria Fundação Calouste Gulbenkian, a editora, e todos me diziam que estava esgotado há anos.
Livros à Mão
Livros são criaturas que podem fazer de tudo. Uns emocionam, outros divertem, alguns ensinam, muitos assombram. Poucos afetam nossa química. Como se um big bang particular acontecesse dentro da nossa cabeça, uma mini supernova explodisse em milhares de luzes, e ganhássemos uma fresta de infinitude para ver a vida de um outro lugar; um lugar de onde não conseguimos mais desver – nem se quiséssemos.
Preciso pedir licença a memória desse querido e admirado escritor para tocar em sua obra, Um toque amoroso e despretensioso. Usando meu direito de leitora, pretendo dizer apenas dos afetos.
“Foi preciso deitar o vermelho sobre o papel branco para bem aliviar seu amargor.”
Não se pode esperar dos livros que nos ensinem aquilo que queremos aprender. Nos dias de sorte, eles nos pegam pela mão, e nos levam aonde precisamos ir. Com a biografia da poeta polonesa Wislawa Szymborska, Quinquilharias e recordações (editora Ayiné), foi assim.
Tati Fraga vai cometer um livro de poemas amanhã. E ele se chama: Essa palavra sem coração.
Esses dias iniciei uma nova aventura: dei meus primeiros passos na caligrafia japonesa.
Sei que é um caminho de uma vida inteira e eu, com muito otimismo, só tenho mais metade. Mas não pretendo aprender japonês e muito menos adquirir alguma maestria na arte do shodo. Quero experimentar escrever uma única frase, que é também o significado do shodo: o caminho da escrita.
Num tempo marcado por desesperança, pela cultura do desamor e pela palavra carcomida por mentiras, a poesia é uma porta aberta, uma pousada hospitaleira onde podemos, talvez, curar algumas feridas. Foi nessa busca de um horizonte possível que encontrei o novo livro de Arnaldo Antunes.
Reuni quatro passagens de quatro autores diferentes. Alemão, espanhol, italiano e português, respectivamente Sloterdijk, Gamoneda, Pavese e Herberto Helder. Pavese foi o único que não consegui dar contorno e incluí-lo à trama deste texto.
… o fim do primeiro mês de um ano diferente, em que o encontro de carne e osso e alma ainda era possível.
“Por que minha tia foi internada no hospício?
Porque estamos soltos, ora” — responde o pai.

