Nascimentos, por Arturo Gamero

por Arturo Gamero

 

“A faca não corta o fogo” H. Helder

 

Reuni quatro passagens de quatro autores diferentes. Alemão, espanhol, italiano e português, respectivamente Sloterdijk, Gamoneda, Pavese e Herberto Helder. Pavese foi o único que não consegui dar contorno e incluí-lo à trama deste texto. Mas, como vocês verão, o poema dele amalgamou-se por si só ao cenário. Isso aconteceu, em parte, porque não o conheço tão bem, mais o admiro do que o conheço. Sempre o temi, semelhante ao que sinto por Paul Celan. Diálogos com Leucó é um livro inteiramente rabiscado. A experiência de leitura fez de mim um sismógrafo que recobria o texto impresso com garatujas informes. Creio que eu tecia redes a fim de apreender as imagens míticas do autor. Enfim, Pavese e Celan suicidaram-se e sempre tive medo, dada a identificação profunda com a obra de ambos, de assumir o mesmo destino. Em outras palavras, mesmo a morte deles me seduzia.

Digo isso tudo a fim de introduzir o tema que atravessa essas passagens. Não é a morte voluntária, mas o nascimento, sempre involuntário até o momento em que ganha a espessura da vontade. Ou seja, proponho refletir novamente o nascimento, mas também a literatura ou ainda mais do que isso, pois a literatura, ela mesma, já não é, ou nunca foi, horizonte suficiente para as erupções do humano. Cito quatro passagens nas quais a literatura existe como algo consanguíneo às formas do vivente. Eu diria, que a consanguinidade entre a literatura e a vida, a consubstancialidade entre a paisagem e o cálamo, faz da literatura o sismógrafo de abismos frutuosos.

 

“Quem busca voltar à página onde nascem os signos matinais de seus começos começa outra vez no sentido verdadeiro da palavra. Abre as páginas vazias nas quais se gravam as primeiras diferenças, desenvolve o pergaminho vivo que trás as marcas ainda pulsantes de uma tatuagem particular, o que se manifesta aqui não faz senão confirmar a suposição psicológica de que há camadas ou estratos do anímico nas quais o tempo se detém”.

 

Esta passagem foi extraída do livro Vir ao mundo, vir à linguagem, de Peter Sloterdijk. Eu a traduzi a partir de uma tradução espanhola da obra. Ela fala das páginas que abrigam os signos matinais do vivente. O fluxo silencioso da ondulação amniótica e a passagem ao troar natalício. As páginas inacessíveis do começo são a reserva de êxtases indiciais que se resguardam de nós sob a forma de estratos do anímico. A literatura, neste sentido, seria uma espécie de filosofia da presença, um tatear estratigráfico dos amalgamas ontológicos.

A passagem seguinte foi extraída do livro Cecilia, escrito pelo poeta espanhol Antonio Gamoneda. De um modo brincalhão, diria que este poema é uma meditação, por assim dizer, winnicott-plotiniana. Ele fala da fusão melódica da pele e o calor germinativo do embrião submergido na mãe. Mesmo após o despertar do nascimento, o feto é envolvido pelo sopro das imagens maternais que o animam e o enlaçam, cerzindo um semblante que paira acima da angústia de existir. O poder tentacular do desejo da mãe, materializado na forma incorpórea de um sonho, enleia o troar vivente do rebento. Diria que a parte winnicottiana corresponde a essa imagem do contínuo amalgama vivente entre mãe e filho, ao passo que, a parte plotiniana surge na caracterização do despertar natalício como confusão luminosa. Em outro poema deste mesmo livro, lemos: “Fluías en la oscuridad; era más suave que existir.” Essa passagem revela as inclinações metafisicas do autor, sua inclinação, digamos, cioraniana para os êxtases embrionários, isto é, a negação do mundo tão intimamente soletrada no livro do filósofo romeno intitulado Do inconveniente de ter nascido. Muito bem, na verdade, senti-me incapaz de traduzir o poema à altura, por isso, considerando a transparência que há entre o idioma do poeta e o nosso, decidi poupar-lhes, a vós e também ao poema, de minha insuficiência. Apesar de conhecer o idioma, afinal nasci em uma família de espanhóis, uma mistura entre bascos e sevilhanos, comunistas e franquistas, pura injunção de antíteses e, talvez, por isso prefira citar o poema no original, dando-lhes a oportunidade de ouvir a dicção poética do autor.

O poema diz o seguinte:

 

Durmes bajo la piel de tu madre y sus sueños penetran en tus sueños. Vais a despertar en la misma confusión luminosa.

Aún no sabes quién eres; estás indecisa entre tu madre e un temblor viviente.

 

Seria como dizer: dormes sob a pele de tua mãe e seus sonhos penetram em teus sonhos. Vais despertar na mesma confusão luminosa. Ainda não sabes quem éres; estás indecisa entre tua mãe e um tremor vivente.

 

A brincadeira que fiz, reserva para Winnicott a imagem da ondulação contínua entre os sonhos do ser intrauterino e a ondulação onírica da mãe. A mãe está desperta, mas ao sonhar submerge ao fluído amniótico que abriga em seu ventre, como uma redoma de silêncio e sonhos, uma esfera quieta como a superfície de um lago, no qual ela observa, em meio à névoa de um espelho consanguíneo, a fermentação escura de uma vida nos olhos ainda recobertos. À parte plotiniana, concedemos o tremor vivente, ou melhor, a ruptura trágica entre o fluir obscuro e a vida tremula que adentra a confusão do mundo. A imagem da vida é aqui a da vertigem de ar e luz em que caem os seres expostos ao clarão do nascimento. Agora, o que segue é um poema de Cesare Pavese, intitulado UMA ESTAÇÃO, contido no livro Maternità.

 

UMA ESTAÇÃO

Esta mulher outrora era feita de carne
fresca e sólida: quando portava um menino fechava-se, escondida, e murchava sozinha.
Não gostava de se mostrar deformada na rua.
Nas outras vezes (era jovem e sem querer
fez muitos filhos) passava pela rua
com um andar seguro e sabia gozar cada instante. Os vestidos são ventos nas tardes de Março

e colam-se e ondulam à volta das mulheres que passam. O seu corpo de mulher movia-se seguro no vento
que se esvaia deixando-o mais forte. Não tinha outro bem

a não ser o corpo, hoje consumido por tantos filhos.

Nas tardes de vento espalhava-se um odor de seivas,
o cheiro que tinha avivava o jovem corpo
por baixo dos vestidos supérfluos. Um sabor a terra molhada que em Março volta sempre. Na cidade, mesmo onde não há avenidas
e nem chega com o sol um sopro de vento,
o seu corpo vivia, exalando sucos
fermentados, entre os muros de pedra. Com os anos também ela,
que alimentou outros corpos, se quebrou e dobrou.
Não é bonito vê-la, perdeu toda força;
mas, dos muitos, uma filha volta a passar
pelas ruas, à tarde, e a ostentar ao vento
sob as árvores, sólido e fresco, o seu corpo que vive.

 

E por fim, diria que há um poeta português chamado Herberto Helder. Havia… há… Apesar de morto, ele segue existindo aqui, na lavoura aérea das palavras. Há um livro que deixou escrito, intitulado, ao menos até onde sei, A colher na boca. Sua obra completa é vasta e diria, milagrosa, pura vertigem de alguém que procurou “dizer como tudo é outra coisa. Falo, penso. Sonho sobre os tremendos ossos dos pés. É sempre outra coisa, uma só coisa coberta de nomes. E a morte passa de boca em boca com a leve saliva, com o terror que há sempre no fundo informulado de uma vida.” O poema que cito abaixo, é o segundo de uma série intitulada Fonte – contida no livro A colher na boca, contido na obra completa Poesia toda. Diria só mais uma coisa. Diria que há poetas cuja obra inspira o silêncio. Helder é um desses. O silêncio que cultivamos em redor do fogo.

 

II

No sorriso louco das mães batem as leves gotas de chuva. Nas amadas
caras loucas batem e batem
os dedos amarelos das candeias.

Que balouçam. Que são puras.
Gotas e candeias puras. E as mães
aproximam-se soprando os dedos frios.
Seu corpo move-se
pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões
e órgãos mergulhados,
e as calmas mães intrínsecas sentam-se
nas cabeças filiais.
Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado, vendo tudo,
e queimando as imagens, alimentando as imagens, enquanto o amor é cada vez mais forte.
E bate-lhes nas caras, o amor leve.
O amor feroz.
E as mães são cada vez mais belas.
Pensam os filhos que elas levitam.
Flores violentas batem nas suas pálpebras.
Elas respiram ao alto e em baixo. São
silenciosas.
E a sua cara está no meio das gotas particulares
da chuva,
em volta das candeias. No contínuo
escorrer dos filhos.
As mães são as mais altas coisas
que os filhos criam, porque se colocam
na combustão dos filhos, porque
os filhos estão como invasores dentes-de-leão
no terreno das mães.
E as mães são poços de petróleo nas palavras dos filhos,
e atiram-se, através deles, como jactos

para fora da terra.
E os filhos mergulham em escafandros no interior
de muitas águas,
e trazem as mães como polvos embrulhados nas mãos
e na agudeza de toda sua vida.
E o filho senta-se com a sua mãe à cabeceira da mesa,
e através dele a mãe mexe aqui e ali,
nas chávenas e nos garfos.
E através da mãe o filho pensa
que nenhuma morte é possível e as águas
estão ligadas entre si
por meio da mão dele que toca a cara louca
da mãe que toca a mão pressentida do filho.
E por dentro do amor, até somente ser possível
amar tudo,
e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor.

 

Arturo Gamero

arturogamero@yahoo.com.br

instagram: @arturogamero

 

créditos da imagem: Cy Twombly (1928-2011), Untitled, 2005. 128 x 194½ in (325.1 x 494 cm). Estimate on request. This lot is offered in the Post-War & Contemporary Art Evening Sale on 15 November 2017 at Christie’s in New York

 

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