O coração do livro é abraçado por suas capas. Ali, naquela materialidade tecnicamente chamada miolo (mas é onde está o coração!), há uma experiência de escrita, de vida, que não pode ser repetida, mas pode, infinitas vezes, ser lida, sentida, vivida, recontada.
A voz d’A Casa
Comecemos como se termina: Por delicadeza, perdi minha vida (Rimbaud).
Fui interpelada por esse poema na última sexta-feira, com a seguinte informação: estamos saindo da Covid, mas já melhores. No dia mais crítico da doença saiu esse poema, disse o Edson Cruz.
Tenho pensado no arco histórico que deslocou a imagem do coração do centro afetivo dos acontecimentos para o núcleo biomecânico das forças sociais modernas, posicionando-o numa certa utopia progressista: “menos emoção, mais razão”.
um dia alguém percebeu que escrevia e desenhava pedaços de algo nas paredes de vapor do chuveiro ligado.
Além de acabar com a monotonia dos cabelos, o que chama atenção é que as orelhas parecem ter uma intimidade fundamental com as mãos.
Esta semana, uma jovem de 14 anos me disse: “Necessito ficar perto da minha mãe porque meu corpo não está me sustentando.”
Estamos, sim, no deserto. Nada pela frente, nada atrás. Está incômodo. Se venta, se faz calor, se os pés doem, tudo pesa, grave.
Mas no deserto há a voz.
Quem escuta não depende apenas de bons ouvidos.
Há quem escute pelos pés, há quem escute pelas pontas dos dedos, há quem escute pelo estômago, pela paisagem. Pelo focinho gelado e úmido de um animal. Pelos olhos de alguém.
Mãos fechadas dificilmente apalpam, seguram, medem durezas e levezas, mudam algo de lugar ou constroem coisas.

