[A voz d'A Casa] Conversa com pais e educadores, com Talita Minervino

Por Talita Minervino

 

Esta semana, uma jovem de 14 anos me disse: “Necessito ficar perto da minha mãe porque meu corpo não está me sustentando.”

Desde o nascimento da minha filha, comecei a ter mais consciência do quanto temos plastificado e objetificado o corpo materno. Em uma lógica da eficiência de um bebê que pouco chora, dorme bem, engorda e mal dá trabalho, fomos acreditando que o berço era melhor que o colo, a chupeta melhor que o peito, a mamadeira melhor que o leite materno, técnicas e mais técnicas para um bebê dormir a noite toda, como se atestássemos alguma incompetência a cada despertar do filho.

Seguindo esta tal eficiência, acabamos por esquecer o quão trabalhoso e custoso  é sustentar uma existência. Sustentar na presença, no corpo, na tentativa de compreensão do choro e no respeito a um ritmo da existência que não está de acordo com a hora de acordar, de dormir, comer ou trabalhar.

Na verdade, se ser efetivo significa produzir um efeito real, teríamos que nos lembrar constantemente que a experiência de realidade de si e do mundo só se dá no contato com um outro verdadeiramente vivo.

O que é comida sem fome, cama sem sono, fome sem comida, sono sem amparo?

Todo desenho de um corpo ganha traços fortes apenas no seu reconhecimento. Se somos retirados ou afastados das relações humanas, na ausência de um forte contorno, muito do que somos pode se apagar.

A lógica de uma vida “eficiente” pode oferecer escoramentos para uma vida que não se sustenta por si. Horários que regulam afazeres, deveres, tarefas, trabalhos, “diversões” pré-estabelecidas, distrações fabricadas, conversas prontas, conhecimentos sem fim, relações forjadas… muitas peças de escoramento cotidianamente utilizadas e abusadas.

A quarentena parece corroer algumas dessas estruturas. Se o humano que encontro é uma timeline que não pode ouvir a minha fome, reconhecer as minhas dores… mais do que o encontro com o outro, fica impossibilitado o encontro comigo.

Se é uma tarefa da vida toda reforçar ou desenhar nossos traços, a criança, o adolescente, ou quem ainda não pôde bem realizar, nesta experiência de quarentena está jogado num mar revolto.

Mergulhados na angústia da não existência, necessitam urgentemente do encontro com corpos vivos que os ajudem a respirar. Cada visita ao que se é, é uma subida à superfície.

Esta mesma menina mulher, avassalada pela dor de se reconhecer sem contornos, avassalada pela falta de entornos, avassalada pela consciência profunda da violência que a população está submetida por se perceber parte dela, me conta sobre como sente-se culpada por não conseguir concentrar-se na aula online de química.

Tenho vontade de chorar, de colocá-la no colo.

E tento. O colo das palavras e do silêncio. Expressões do meu olhar que torço para chegar até ela, apesar da tela de vidro, áudios cortados, presença sem cheiro, imagens congeladas…

Por outro lado, sinto que nunca tinha vivido tamanha intimidade e proximidade com as pessoas que acompanho. Como se a experiência pedisse mais corpo. O meu corpo inteiro. A minha presença constante. São nestes encontros que estamos nos salvando mutuamente. Estamos existindo.

Outro dia, uma professora perguntou minha opinião a respeito de uma atividade. Esta havia sido desenvolvida no ano anterior e a intenção era repeti-la. Como se tratava de um boneco que a criança levaria para casa para acompanhá-la no fim de semana, ficaram as dúvidas: A criança poderia levar o boneco para a casa? O boneco ficaria contaminado? O boneco teria que ficar na escola?

Estava tudo muito confuso, já que havia um esforço enorme para repetir uma experiência conhecida em um contexto que por si inviabiliza a experiência.

Comida sem fome, cama sem sono…

O reconhecimento de uma nova realidade exige um trabalho de luto.

Exige força para frear no “vazio” e na inconclusibilidade, ao invés de nos apoiarmos nas velhas e péssimas escoras enferrujadas.

Se para alguns a vida tem que seguir mesmo que para isto tenhamos que morrer, pais e educadores não podem seguir essa lógica da “eficiência”, utilizando uma espécie de burocratização da vida cotidiana. Isto mataria a vivacidade de quem está dependendo deles para sobreviver existindo de fato.

 

Talita Minervino Pereira é psicanalista e atende n’A Casa Tombada

 

crédito da ilustração: Tatiana Russo

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