Pode o toque, por Ângela Castelo Branco

Ângela Castelo Branco

Mãos fechadas dificilmente apalpam, seguram, medem durezas e levezas, mudam algo de lugar ou constroem coisas.

Mãos fechadas nos lembram o coração, o útero que, como cavidades abertas, são territórios de passagem, de deixar ir e vir.

Mãos fechadas não tateiam, mas podem receber o toque. Justamente por estarem paradas, sem seu impulso característico de ir lá e fazer, justamente por estarem a um certo distanciamento das coisas é que podem ser tocadas. E tudo aquilo que é tocado toca também.

É da natureza do toque a reciprocidade.

Uma casa fechada, assim como as mãos fechadas nos toca e recebe o toque. Por não estarmos mais dentro dela, por não nos misturamos com ela, por estarmos a uma certa distância é que a sentimos com tanta intensidade.

Uma casa fechada nos toca em absoluto, em seu todo. A casa se fecha e passamos a não ter mais barreiras entre elas e nós. A casa se fecha em seu abrir. Nos abre em seu fechar.

Não escutamos mais as vozes com os nossos ouvidos, não pisamos mais em seu chão com os nossos pés, não deixamos marcas de nossos corpos nas paredes, não vimos a luz entrar por nossos olhos, não sentimos os cheiro pelas narinas.

Mas ela nos toca, nos sensibiliza. Sentimos o toque de uma casa vazia com o corpo inteiro, na pele de dentro e na pele de fora. Estremecemos em paradoxo: estamos distantes e, por isso mesmo, podemos nos tocar.

Foi esse convite que fizemos aos vizinhos d’A Casa Tombada. Um lugar que recebe muitas pessoas, onde muitas conversas e encontros essenciais acontecem, agora de portas fechadas, vazia. Como sustentar, como estar a altura da pergunta:

 – O que pode um’A Casa Vazia?

Foram muitas respostas, envios, perfurações, luminescências que recebemos. Então, organizamos em um livro pousado na nuvem, repleto de vozes, um livro que não vamos segurar com as mãos, mas que nos toca profundamente.

Link para a publicação: O que pode um’A Casa Vazia?

https://online.pubhtml5.com/wbkr/mzop/

Esse projeto nos abriu a possibilidade de uma nova e sonhada parceria para a criação e edição de livros. A Baleia Livros, concebida pela Helô Beraldo, apaixonada por livros e literatura, tornou-se agora uma co-criadora das tessituras, texturas e textos das vozes d’A Casa Tombada.

Sobre a Baleia Livros:

A maior parte do nosso mundo é oceano. E, nesse mundo compartilhado, tudo o que realizamos tem o pedacinho de vários universos-pessoas.

Na baleia livros, trabalhamos com o que mais nos afeta: os livros, o fazer livros, o pensar livros, o ler livros, o conversar sobre livros.

Livros que estão prontos, livros que estavam escondidos, livros que são projetos, livros que estão prestes a ter corpo, a nascer, vão contar com o olhar, com as vozes, com o pensar e com as mãos de uma união de pessoas, de talentos. Parcerias.

Em parceria, queremos mergulhar fundo, compartilhar saberes pela imensidão dos oceanos e fazer, cada vez melhor, o que mais amamos.

Acompanhe a editora no facebook: https://www.facebook.com/baleialivros/

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[03/08] Narração Artística: Conversas sobre os paradoxos no ato de contar histórias nas cidades – com Giuliano Tierno

[25/07] Ateliê de vídeo para contar histórias – com Yohana Ciotti

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