Era uma Jornada de Pesquisa da Turma 6 do nosso curso de pós-graduação O Livro Para a Infância: processos contemporâneos de criação, circulação e mediação. Era uma manhã de um sábado em que os estudantes haviam sido convidades a expor suas ideias para o TCC – texto de conclusão de curso – a ser finalizado ano que vem.
Saberes d’A Casa
A literatura guarda essa preciosa potência do silêncio e se um dia ela, a literatura, desaparecer, por uma hipotética vitória do pensamento autoritário ao redor do mundo, os livros seriam ainda seus guardiões – os guardiões do silêncio, portanto, do atrito, da resistência.
Acompanhar o percurso de alunos e alunas educadores, seus processos de pesquisas com crianças, suas descobertas e surpresas ao se abrirem para conhecê-las nas suas singularidades – independentemente do grupo e contexto onde cada criança se encontra – é, confesso, uma das maiores alegrias que um formador pode ter na sua vida pessoal e profissional.
Durante um semestre, após o acolhimento e as conversas com o professor Júlio Groppa Aquino, passei a encarar o desafio de tentar transformar minhas aulas de História nesse espaço onde semanalmente os alunos parassem para escrever, mas uma escrita livre ou escrita-artista como venho aprendendo com Júlio e lendo também Sandra Mara Corazza. Passei a enxergar as aulas como esse lugar onde se respeita um dos pontos da ética foucaultiana (que aprendi também com o Júlio em referência a Deleuze): a dignidade de não falar pelos outros.
Meu espanto com os lampejos filosóficos não me abandonava. A única linha possível de ser seguida parecia o limiar. Estava sempre entre: na ciência, na arte, na filosofia. No sono, entre o sonho e a vigília. As horas eram objetos moldáveis, a noite virava dia que virava...
A falta.
A adaptação.
Puxa, agora não dá mais.
Tem que ser de outro jeito.
O que permanece?
Como não perder a textura dos encontros?
Escutar crianças para quê?
Esta é talvez a pergunta fundamental a ser colocada.
As crianças estão se expressando o tempo todo, seja através dos seus comportamentos, das suas reações, dos seus corpos, das suas preferências, das suas teimosias, das suas agressividades, dos seus silêncios, das suas conquistas, das suas frustrações.
Foi nesse espírito de respeito profundo pelas crianças, que alunas do curso de Pós Graduação Lato Sensu ‘A vez e a voz das crianças’, foram escutar crianças em diferentes territórios, contextos e culturas; e começaram a desvendar seus mundos, aparentemente conhecidos, efetivamente desconhecidos e surpreendentes.
E é com grata alegria e entusiasmo que lançamos na A Casa Tombada o Curso de Extensão sobre Livro de Artista – “Livro de Artista e suas extensões gramaticais" -, reunindo pesquisadores, artistas e produtores que pensam o Livro de Artista como espaço de investigação, campo poético e dispositivo na cena contemporânea.
Foi assim que Lucas Buchile se viu no desafio e na oportunidade de entrevistar um mediador que admira há tempos e sonhava um dia poder conversar: Francisco Gregório Filho.

