Este trabalho nasce de uma carta escrita para minha avó — e nunca
entregue. Primeiro, pela impossibilidade física: ela está morta. Depois, pela
dificuldade de dizer adeus. É na escrita que realizo essa cirurgia — talvez tardia,
mas vital: rasgo os tecidos da pele e, camada por camada, e retiro (vezes com à
minúcia de um médico cirurgião, vezes com a frieza e agilidade de um açougueiro
que precisa separar a carne do osso para seguir adiante) tudo aquilo que
permaneceu calado, até que tudo esteja exposto e eu possa fazer a sutura da
despedida. Nesta pesquisa, investigo o luto por meio da memória — entendida aqui
como o único antídoto possível contra a ausência. E reúno cada pista-lembrança,
com o objetivo de encontrar um modus operandi para lidar com o fim. O presente
trabalho se constrói na autoficção: um conjunto de contos que percorre
momentos-chave da partida de minha avó Dora: o dia de sua morte, o corpo
encontrado, o velório, os dias que vieram depois, os objetos que ficaram, suas
cinzas, o adeus e, por fim, um retrato possível de quem ela foi — ou do que restou
dela em mim. Não escrevo para fechar feridas, mas para dar nome às cicatrizes.
Talvez eu nunca consiga me despedir por completo — porque o luto não tem ponto
final. Mas ao escrever, eu crio o verbo, e dessa forma faço com que ela SEJA,
assim, eu continuo SENDO também.