Este trabalho propõe a criação e análise do Acervo De Lírios Didáticos, uma coleção
híbrida composta por escritos espontâneos de alunos e por textos autorais da própria
pesquisadora. A escrita dos alunos — os “Lírios” — emerge em brechas da rotina
escolar, fora de atividades pedagógicas formais, expressando-se de maneira livre e
gestual. Os escritos da docente são registros reflexivos e literários que dialogam
indiretamente com as produções infantis e com temas como docência, discência, escrita
gestual e informal, tempo criativo e capital simbólico e patrimonial compondo uma
espécie de “delírio didático”. A recolha dos escritos dos discentes ocorreu — e ainda
ocorre — em uma instituição de ensino internacional e, por isso, o idioma utilizado nas
cartas, bilhetes, cartazes e demais textos varia de acordo com a língua materna dos
autores. O projeto investiga as tensões que permeiam os temas previamente citados,
propondo deslocamentos no entendimento da escrita escolar e apreciação de escritos
autônomos dos alunos, como flores a serem contempladas. O Acervo assume um
caráter experimental e subversivo ao propor a legitimação da escrita infantil criativa
como patrimônio, deixando de funcionalizá-lá no viés escolar e permitindo que ela exista
enquanto objeto cultural de relevância, passível de consideração. Os registros
coletados, à primeira vista, podem parecer não possuir importância escrita, tipificação
literária tampouco valor curatorial, desafiando assim os critérios tradicionais pelos quais
uma produção é ou não passível de apreciação, coleção e acervamento. Ao tensionar e
contrapor a noção da escrita autoral, natural e imanente com o caráter artificial e
legitimador de um acervo, abre-se um logradouro em que se desafiam os limites do que
é "obra", "texto" e "passível de acervo", bem como a maneira como classificá-los e
catalogá-los em tais instrumentos. O projeto investe na coleta dos ínfimos, ditos Lírios, e
joga com a linguagem da botânica, na valorização do gesto como escrita legítima e
imanente, configurando o Acervo De Lírios Didáticos como um espaço em processo,
onde a escrita brota, se reproduz e resiste.