Intervenções Bárbaras: o ensino como ato poético/ comunidade de tradução, por Janaina de Paula

Escute aqui fragmentos de textos literários traduzidos, na voz de Janaina de Paula:

 

https://anchor.fm/janana-de-paula/episodes/Intervenes-Brbaras–comunidade-de-traduo—Episdio-1-ed9q4l/a-a21n0p0

 

“pouca-loucura não é uma perfeita inconsciência da grande alegria sobre a terra?”

Era ainda noite quando a imagem de uma comunidade, tecida no gesto de tradução, atravessou a sala. Reunia, pouco-a-pouco, os poetas traduzidos por Llansol e todos os outros que fazem da escrita o lugar onde a palavra possa voltar a significar o real. Sentados à mesa estavam: Rilke, Rimbaud, Appolinaire, Holderlin, Emily, Pierre Louys, Verlaine, Thérèse, Baudelaire, Virgínia, Colette, Flaubert. Era noite e a casa estava vazia. A cidade estava vazia.

Seguindo o percurso das figuras e o espaço aberto pela sua presença, entrei numa outra temporalidade, não a da história, mas aquela desenhada pela linha dos afetos que revelam o rastro do fulgor guardado na língua dobrada do poema. “Dobra a tua língua, articula”. Dobrei então a língua para ler, no ritmo dessas dobras, o gesto de tradução, a sobrevivência dos corpos e a criação de um espaço onde as línguas se comunicam no ponto mesmo da diferença.

Dobrei a minha língua.

A tradução visa um ponto não metafórico, não se limitando aos aspectos semânticos e sintáticos das línguas. Traduzir é tocar/ler o movimento do corpo do outro, seus biografemas, para fazer com eles uma outra geografia. Tocar/ler o corpo do outro.

Dobrei a minha língua e recolhi uma imagem.

Os corais: não são vegetais nem animais, deveriam ser considerados um terceiro tipo de Coisa Viva. São “animais de flores”, árvores do mar, coisa viva que habita o fundo de terras alagadas. Podem formar comunidades que abrigam um ecossistema de grande diversidade. Uma comunidade idiorrítmica, inconfessável, que pressupõe a presença da singularidade, do movimento incessante, do devir, do “eterno retorno da diferença”.

Dobrei a minha língua para recolher os ritmos e pulsações em diferença

Isso é um voto, uma prece, um sopro no meio do mar – essa terra alargada.

“Sabemos voltar, nós, os prematuros: voltarei vivo, mais vivo do que nunca.”

 

 

Janaina de Paula é psicanalista, doutora em letras – Estudo Literários – pela UFMG, com tese sobre Maria Gabriela Llansol. Lê e escreve. Edita livros pela Cas’a edições e, atualmente, realiza um pós-doutorado na faculdade de letras da UFOP sobre a leitura, a escrita e a tradução em Maria Gabriela Llansol.

Cursos d'A Casa

[21/11] Para Amar a Poesia: a arte da palavra e a infância – com Giba Pedroza

[30/11] Escritas de quarentena – com Tatiana Barbosa Cavalari

[19/11] A Poética do Objeto: da Metáfora ao Afeto – com Kelly Orasi

[18/11] Ateliê online: Práticas de desenho e pintura – com Biba Rigo

[12/11] Música Africana na Diáspora no Brasil – com Spirito Santo

[12/11] O Diário de Frida Kahlo: um escrever pictórico? – com Carla D’Alessandro

[09/11] Escutas radicais: ecologia de práticas e práticas em ecologia – com Sebastian Wiedemann

[09/11] A linha e seus papéis: cartografias do desenho – com Edith Derdyk

[15/10] Oficina de poesia: O delírio da palavra – com Tatiana Fraga

[14/10] O rito de passagem das fotografias: reinvenção de memórias – com Sandra Lessa e professores convidados

[16/09] Conto de Fadas: Retorno ao País da Infância – com Marco Haurélio – 3º módulo

[01/09] Livro de Artista e suas extensões gramaticais – curso de extensão universitária com coordenação de Edith Derdyk