O texto acadêmico é também uma história a ser contada, por Letícia Fagundes

 

por Letícia Fagundes

 

Interrompia

Ela tinha sensação de que tudo na vida era um interrompia só.

Não, vou ter de interromper. Na vida não. Na vida de mãe.

Ainda não. Na vida de mãe na quarentena.

Abre os olhos, troca fralda, escova todos os dentes. Dela e dos dela. Rolou alguma mensagem nesse ínterim, com certeza.

Começa o café. Para, colo, manhê me limpa, volta, café gelado, pão queimado, dá o próprio pão, dá a fruta, come só o bagaço. Conversa com o marido. Ops. Tenta conversa com o marido. As crianças querem falar. Ops. As crianças falam. Em cima.

Desculpe a interrupção, mas já entendemos. E cansamos. São só oito.

Interrompia.

In … dentro nada. O melhor seria Out. Out of the box. Nope. Out of the little house mesmo. Me. Apesar do “fique em casa”.

Inter…Total. Uma estrangeira na própria casa. No próprio país. Deslocada.

Interro…Eu ouvi enterro? Você ouviu também? Enterro da vida de antes, enterro da privacidade, enterro da liberdade, enterro da democracia, enterro de milhares. Enterro simbólico, enterro literal.

Interromp…Romp. Rompe. Rompem os abraços e alguns laços. Ah sim, e 2020. Mais rompido que esse aí não tem, né?

Interrompia… Pia?! Cheia. Muito. Toda hora. Sempre. Fazia só três colheres limpas e a bebê chorou.

E a linha de pensamento?

Bem, é só voltar ao início. Não é tão grave.

08/06/2020 – durante isolamento social, a todo instante interrompida, mas até que está no lucro. Para esse texto, não foi interrompida nenhuma vez. A madrugada é minha melhor amiga e a pior do interrompia.

 

“Tenha mais perguntas do que respostas.” Foi com essa provocação deixada pela professora Luiza Christov ainda durante as aulas do curso de pós-graduação “A Arte de Contar Histórias”, da Casa Tombada, que comecei a trilhar com mais confiança meu percurso do trabalho de conclusão de curso.

A ideia de elaborar um texto acadêmico, uma tese, um tratado, me assustava um tanto. Na cabeça, até então, a certeza de que eu precisava ter certezas. Mas aquele norte de que, na verdade, eu devia apostar mais nas minhas dúvidas, me iluminou para o que hoje está concluído*. Também com a ajuda da Luiza e de todos os professores, sobretudo minha orientadora Ângela Castelo Branco, passei a acreditar na possibilidade de um texto acadêmico quente e próximo a mim. Eu contaria uma história. Ou algumas. E isso é ou não o que eu mais gosto de fazer na vida? Ainda assim, foram dois anos de percurso. Dois anos me perguntando o que eu queria contar no meu artigo.

Alguns encontros foram fundamentais para eu chegar aqui. Regina Rapacci é escritora, oferece oficinas de escritas, trabalha com biografias, memórias. A conheci há muitos anos, por meio de uma amiga em comum. Logo me encantei por ela, pelo trabalho dela. Muito valioso, pra mim, é ajudar alguém a contar a própria história. Em 2016, quando ela lançou o livro “Vida em Veios”,  sobre o duro processo da morte da mãe, meu respeito, minha admiração, minhas inspirações só aumentaram. De algum modo eu sabia que queria contar sobre a Regina no meu trabalho. Marquei duas vezes com ela em momentos bem espaçados no tempo. Perguntei muito. E foi um privilégio e uma alegria ouvi-la contar a própria história.

Se havia muito tempo que eu imaginava contar sobre a Regina, Livia Piccolo foi uma surpresa. Despretensiosamente fui assistir a uma peça de teatro. Um respiro solitário depois de dois meses do nascimento da Manuela, minha segunda filha. A experiência me aconteceu, como diria o educador Jorge Larrosa Bondía. Na peça “A filha da mãe” havia muito do que eu própria precisava contar desde que virei mãe. Eu saí daquele teatro querendo ouvir a autora do texto. E ainda sem saber no que resultaria, marquei o encontro.

Eu quis ouvi-las sobretudo para conhecer o que as faz narrar. E especificamente o que as tinha feito contar o que contaram no livro, no caso da Regina, e na peça, no caso da Livia. Nesse meio tempo, muitas escritas e tentativas de minha parte. Chegou a pandemia. E eu disparei a escrever como há muito não acontecia. Textos soltos, largados e, muitas vezes, molhados de lágrimas. O mal-estar me levou a uma escrita constante, obrigatória, diária. Eu nem me dava conta, mas já estava contando. E eu quase não me dei conta, mas já tinha o meu TCC que, com muita alegria, hoje, compartilho neste blog.

*concluído no sentido de entrega acadêmica. Porque sinto que neste texto há mais inícios do que pontos finais. 

 

Aqui o link para ler na íntegra o artigo: Tempo de angustiar é tempo de contar? – Um ensaio, de gestação longa, parido na pandemia, quer mostrar que mal-estar pode ser um caminho narrativo, de Letícia Fagundes

http://biblioteca.acasatombada.com.br/omeka/items/show/1705

 

 

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