[Saberes d'A Casa ] Falar dos livros, falar de si: o que pode ouvir um coletivo?, por Cristiane Rogerio

Por Cristiane Rogerio

 

 

O curso de pós-graduação O Livro Para a Infância sugere um encontro em torno deste objeto que – seja qual for a nossa trajetória – faz parte da vida de todos nós

 

CRIAÇÃO

CIRCULAÇÃO

MEDIAÇÃO 

de livros, de afetos, de pessoas.

De livros. Os livros da infância, da adolescência, da juventude, da época da faculdade, da biblioteca do namorado, da casa da prima, emprestado da professora, de difícil acesso, de leitura obrigatória. De cheiro de café feito na hora, de ler junto com chocolate, de se esticar na rede, de ler embaixo da mesa, de folhear correndo, de lembrar da capa escura com letra de ouro, das histórias da avó, de ser muito difícil, da preferência do filho, do que marcou o ano naquela turma.

A memória de leitura, tão falada em cursos sobre livro, leitura e literatura, como se daria num curso de pós-graduação? O que dizer se passamos meses e meses em estudo sobre “o livro ideal”, sobre “qualidade”, sobre “criatividade”, sobre “representatividade”, sobre “arte”, sobre “palavra”, sobre “escrita em texto e imagem e projeto gráfico”.

Em determinado momento das turmas de nosso curso sugerimos que se desconectem do conhecimento acadêmico percorrido e se encontrem com a emoção. Como? “Escolham um livro considerado ‘para a infância’ que vocês salvariam de um incêndio! Um! Apenas um!”. A comoção é imediata. A dor da escolha vem antecipada, junto a muitas perguntas. “Sem regras? É escrita livre?”. Sim, sem regras de escrita, mas precisamos garantir informações básicas para que o leitor consiga achar aquele livro.

Assim nasce a RESENHA-AFETIVA.

Afetiva? Sim. Como o livro o afetou? 

É assim que também falamos dos pilares de nossa pós: CRIAÇÃO, CIRCULAÇÃO E MEDIAÇÃO dos livros para a infância.

Uma maneira de tocar nas “RELAÇÕES COM O LIVRO” e que nós, da coordenação do curso, procuramos alinhavar, cruzar, contrapor, abrir, questionar, encontrar rumos (embora não receitas prontas) em processos contemporâneos individuais e coletivos. 

Neste percurso, houve gargalhadas e lágrimas. Houve susto, coincidência, memória. Houve entender alguns porquês. E muitas belezas:

“Antes mesmo de Cris concluir a mediação sobre a história de Inês de Castro, que nasceu na Galiza entre 1320 e 1325 e foi assassinada em Coimbra no ano de 1355, eu já estava ficando numa situação difícil. Deu um nó na garganta, deu dor na boca do estômago, tive vontade de fechar os olhos para não ver, tampar o ouvido para não ouvir”, Jussara Mangini, sobre Inês, de Roger Mello e Mariana Massarani, Companhia das Letrinhas

“Quando eu peguei na mão pela primeira vez o livro A Moça Tecelã eu logo pensei o que é a nossa vida senão um grande entrelaçamento de histórias? É um tal de um que conhece outro, que lembra de alguém, que chama um amigo, que se apaixona, e muda de cidade e descobre novos lugares com novas pessoas, e no final estamos todos juntos, num único e imenso tapete, nós e nossas histórias. E pensei tudo isso só de ver a capa, quantos nomes trabalhando juntos para que aquele pequeno universo fosse criado. Começando por Marina Colassanti, que saiu lá da Etiópia e chegou aqui trazendo um continente de histórias, ela costurou as letras que uma a uma formaram essa narrativa, aí o Demóstenes Vargas, a Ângela, a Antônia, a Zulma, a Marilu, a Martha e a Sávia, também conhecidos como a família Dumont começaram a se entrelaçar, criando belos e livres bordados que foram materializando esse tapete encantado”, de Amanda Miorim sobre A Moça Tecelã, de Marina Colasanti e Família Dumont, Global

“História profunda, contada de forma tão rica quanto simples e silenciosa. Em preto e branco. Vi um pouco de mim. Uma criança feliz e falante, como Pedro, e um adulto mais calado, que gosta de observar, como o livro em si, talvez. Mas que ama a lua”, de Cadu Loureiro sobre Pedro e Lua, Odilon Moraes, Cosac Naify/Jujuba

“Abri o livro junto com ela. Na verdade, com elas, eram duas meninas, que se sentaram comigo para fazermos a leitura. Fomos lendo a história e vendo as imagens. Eu ia perguntando coisas, instigando as crianças a imaginar a história junto comigo. Por que aquele livro tinha este título? Por que aquele autor escolheu aquela imagem? O que aquela imagem queria dizer? Também para mim, o livro era inédito”, Cristiano Carvalho sobre Lá e Aqui, de Carolina Moreyra e Odilon Moraes, Pequena Zahar

“Foi um encontro que inaugurou algo em mim. Inaugurou também uma questão. Aquela literatura era para qual infância? A que tinha vivido? A infância que me habita? Ou seria para a adulta que sou? O livro me encontrou, adulto ou criança, não sei, aceitei o convite. Como era possível um livro para criança desperta tantos afetos em uma mulher?”, Vilma Gomes sobre Menina Amarrotada, Aline Abreu, Jujuba

“Nesse dia, eu precisava escrever sobre um livro que eu salvaria do fogo, da tempestade, do esquecimento. Então, tê-lo novamente nas mãos me fez acreditar em magia. Era uma história tão linda que parecia ter chegado até mim como presente. Senti uma óbvia necessidade de escrever sobre ele e sobre a relação afetiva que existe entre a história que ele conta e a minha própria história… entre seu acalanto e minha saudade…”, Aline Iozzi sobre Uma Princesa Nada Boba, de Luiz Antonio e Biel Carpenter, Cosac Naify

“Frequentava uma biblioteca pública bem pequena na Tijuca, bairro da zona norte do Rio, onde eu morava. Naquela fase que você deixou de ser criança e ainda não tem filhos. Ou seja, não há motivos para frequentar a área infantil da biblioteca, certo? Se está certo não sei, só sei que eu vivia rondando ali. (…) Foi quando me deparei como livro, de 1976, com aquela bolsa amarela na capa, ilustrada pela Marie Louise Nery. Tive vergonha de ir na atendente pedir para levar um livro “infantil” para casa. Mas como numa conexão com a Raquel, deixei a vontade sair da minha bolsa e enfrentei”, Anna Luiza Guimarães sobre A Bolsa Amarela, de Lygia Bojunga, Casa Lygia Bojunga (quando o encontrou na vida pela segunda vez)

“A Árvore Generosa narra a minha fé. Narra a minha relação com a minha mãe, com meu pai. Confidencia os meus medos, revela-me que amo os meus afetos mais do que eu imaginava, me dá bronca e aconselha. É o meu livro-confidência. Uma árvore que me protege”, Priscilla Amaral sobre A Árvore Generosa, de Shel Silverstein, Cosac Naify/Companhia das Letrinhas

“Aos leitores com desejo de se aprofundar, é recomendada mais do que uma leitura. A cada vez, vemos detalhes antes não vistos, compreendemos mais, podemos encontrar preciosidades sobre a vida, as relações e nos descobrir… É uma obra sem limites e uma coisa é necessária: não colocar bordas, deixar o rio escorrer pelas páginas, molhar seus pés e sentir a terra úmida das margens…”, Jaqueline Ortiz sobre Rosa, de Odilon Moraes, Olho de Vidro

“Usando a metáfora de um passeio de bicicleta sem rodinhas, ele fala das perdas naturais pela passagem do tempo e sobre o ciclo da vida. “Preparada, filha?”, começa o livro. E sabe aquele frio na barriga de quando a gente não sabe o que vem pela frente e ainda tenta se equilibrar? (…) O Passeio é um equilíbrio entre imagem, palavra, formato e contexto. Por esse motivo, ele não é um livro para ser salvo só do incêndio. No cenário atual, onde vivemos com incerteza da morte e a indiferença pelos idosos foi escancarada, eu salvo também da pandemia”, Camila Malaman sobre O Passeio, de Pablo Lugones e Alexandre Rampazo, Gato Leitor.

 

Cursos d'A Casa

[09/11] Escutas radicais: ecologia de práticas e práticas em ecologia – com Sebastian Wiedemann

[09/11] A linha e seus papéis: cartografias do desenho – com Edith Derdyk

[04/11] Escritas de quarentena – com Tatiana Barbosa Cavalari

[28/10] Fantasia e design nos livros ilustrados como conceito e método – com Michaella Pivetti

[28/10] Narraturgia: de curtas-metragens a narração oral – com Gazel Zayad

[28/10] A potência da argila na vivência infantil – com Débora Amaral

[23/10] “Eu me lembro”: escrita de memórias em fragmentos – com Tatiana Barbosa Cavalari

[21/10] Maria Gabriela Llansol: fragmentos de um Cor’p’oema – com Janaina de Paula

[21/10] Poesia como ato político – com André Gravatá / 3ª turma

[20/10] Abrir-se para a escuta: de si e do mundo – com Adriana Friedmann

[15/10] Uma mala corpo casa para viajar – com Jullipop

[14/10] Construindo um livro-casa pop-up: a Engenharia de Papel em prol da narrativa – com Gustavo de Magalhães

[14/10] O rito de passagem das fotografias: reinvenção de memórias – com Sandra Lessa e professores convidados

[10/10] Oficina de colagem: O que é ser criança? – com Sofia Lemos

[10/10] De infância e nuvens: o contador de histórias e o imaginário infantil – com Giba Pedroza

[07/10] Dança da mão: desenho solto – com Biba Rigo

[06/10] Introdução à técnica do Papercutting/Kiriê – com Ariádine (2ª turma)

[02/10] Jornada de mulheres heroicas: histórias que precisamos contar / 3ª turma – com Yohana Ciotti

[01/10] Resolução de conflitos na sala de aula por meio das Assembleias Dramatizadas – com Ana Lucia Arbex

[01/10] Oficina de poesia: O delírio da palavra – com Tatiana Fraga

[01/10] A linha e seus papéis: indício, desígnio, anotação e acontecimento / 3ª turma – com Edith Derdyk

[30/09] Onde vive o movimento nas narrativas? A potência de conviver com as imagens e manter o movimento – com Melissa Migliori

[29/09] Narrando Infâncias – com Gazel Zayad

[24/09] Literatura da interioridade: reflexões sobre espiritualidade antiga – com Arturo Gamero

[16/09] Conto de Fadas: Retorno ao País da Infância – com Marco Haurélio – 3º módulo

[08/09] Mergulho na História – Linhas, agulhas e teares com Ana Luísa Lacombe

[08/09] Oficina de Criação de Livro Ilustrado – palavra e imagem, com Odilon Moraes e Carolina Moreyra

[01/09] Livro de Artista e suas extensões gramaticais – curso de extensão universitária, coordenação de Edith Derdyk

[12/08] Encontros com o Povo Verdadeiro – Angela Pappiani