[Saberes d’A Casa] Convite à Escrever, de Marguerite Duras

Ao ler o texto Escrever, de Marguerite Duras, não se sai indiferente. Aliás, esse é um texto que não passa. Esse é um texto que fica latejante. E o que contém, o que é que mobilizam textos assim? A própria autora consegue dar uma possível resposta: há textos que procuram esconder, tapar, preencher e passar ao largo do incontornável, daquilo que não se sabe dizer, que não se sem como dizer.

Há livros que preferem esconder que há acontecimentos que não tem caminhos para virarem palavras. A própria escrita é um acontecimento desses. Mas, no entanto, escrevemos. É assim que Duras diz:

Escrever.
Não posso.
Ninguém pode.
É preciso dizer: não se pode.
E se escreve (DURAS, 1994, p.47)

Nesse texto, a escritora, roteirista e cineasta francesa está numa casa. Ou melhor, na solidão da sua casa. E essa solidão é a mesma solidão da escrita. Uma solidão que se faz solidão. Mas sabemos que essa é uma solidão povoada, uma solidão que se encontra com o reflexo na janela, que olha para fora ao mesmo que para dentro, que se abre em intimidade com os objetos, com os afetos da própria casa.Tudo escrevia quando eu escrevia na casa (p. 22).

Ao afirmar que tudo escrevia quando escrevia na casa, ela evoca a presença de uma ausência, ou seja, uma ausência do sujeito bem delineado (mas não de uma subjetividade) e aponta para uma fusão com a escrita, uma dissolução entre criador e criatura, entre o autor e seu próprio gesto, um fazer-se fazendo. Não há uma diferenciação entre quem escreve e o que acontece enquanto escreve.

Essa é a solidão povoada do tornar-se, do vir-a-ser. Uma solidão que vai ao encontro das florestas, da selvageria, das ancestralidades, da escuridão da terra, da luminosidade do horizonte. Um desfazer-se para tornar-se parte. É aí que se diz: de lá eu vim!

Uma escrita viva e nua a caminhar sem saber o que virá adiante. Nesse lugar, diz, é possível escrever livros que são desconhecidos para si mesmo.

Nessa casa-escrita o convite é para não blefar, enfrentar a própria experiência da escrita. Numa casa nada mente. Ou mente tudo. Uma casa mostra seus lugares. Ou esconde todos. Assim também o livro. Assim também a escrita.

E Duras termina dizendo que, nessa dissolução da solidão acontece algo incrível: nunca se está só. Nunca se está só em parte alguma. E podemos acompanhar com ela a narrativa da morte de uma mosca. Quando estamos em solidão, atenção é mesmo um caminho inevitável. E esse é um convite irrecusável.

Duras escreveu o roteiro do filme Hiroshima, meu amor, de Alain Resnais.Dentre seus livros, destacam-se O Amante, A Dor e Uma Barragem contra o Pacífico. E aqui dois vídeos altamente voláteis para encontrar-se com a autora:

– As mãos negativas, de Marguerite Duras

En rachâchant, baseado no texto de Marguerite Duras Ah! Ernesto (1971)

Referência:
Duras, Marguerite. Escrever. Trad. Rubens Figueiredo. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.

para ler o texto:

https://revistapolichinelo.blogspot.com/2017/04/escrever-marguerite-duras.html

 

Ângela Castelo Branco

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