Como continuar?, por Ângela Castelo Branco

por Ângela Castelo Branco

 

Primeira cena:

uma árvore que não emite qualquer som na chegada do vento. um janela que não range, uma rua que não oferece buracos. um cachorro que já acordou mas não vai latir, crianças trazem no rosto um olhar de 100 anos. casas que já não emitem choro, nem coro, nem balbucio, nem grito, nem reza.

 

Como continuar? O que me faz retornar no dia seguinte?

Há que se passar por essas perguntas sem possuí-las. Nesse exato ponto em que escrever nesse blog já se tornou um cômodo sem móveis nem ressonâncias.

 

Há coisas que já acabaram e continuamos.

Há coisas que ainda não acabaram e, no entanto, não as continuamos mais.

 

E as perguntas permanecem as mesmas: Como continuar? O que me faz retornar no dia seguinte?

 

tentativa  n. 01:

Por teima. Continuo algo para ver onde isso vai dar. Talvez seja uma resposta aceitável, que me alivia por um tempo. Mas quando chega o tal dia seguinte, não necessariamente eu me lembro de qual era a teima, qual era o compromisso, qual era o embate a ser travado. Continuo sem saber o que estou continuando.

 

tentativa n.02:

Porque é assim mesmo. Continuo no dia seguinte porque a vida é assim: esse eterno continuar. Estou continuando porque não tem outro jeito. E me deparo com um amontoado de quebras, rupturas, términos. Por vontade e não. E nesse meio do caminho já não me vejo nem sendo uma porta-voz de um mundo de porvir nem de um mundo que avança por fraturas. A título de sinceridade, percebo que é a palavra porta-voz que mais me incomoda.

 

tentativa n. 3:

A terceira resposta é a mais fácil: continuo porque não tem um dia seguinte. E isso me dá a oportunidade de engatar uma frase de efeito: “todo dia seguinte é sempre o primeiro. E passo a anunciar um mundo novo, um mundo ovo, um convite para entrar na terra, misturar-se ao húmus, chegar ao magma, ao incandescente soterrado. Mas nada disso evita a pá de cal do dia seguinte, que mesmo sem eu querer, me continua.

 

me continua um ritmo, um cheiro, um toque, uma cor, uma textura:

nada meus -mas que me foram dados a participar nesse mundo material e me inscrevem nele-

ontem foi: porta de madeira, óleo usado, baba de lixo

hoje: tecido do fundo da cadeira, chuva de vento, xícara grossa, unha manchada

 

Como continuar?

Talvez essa pergunta gostaria de dizer: Vou cometer o suicídio de viver.

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