Butônica, por Ivy Ota Calejon

 

por Ivy Ota Calejon

 

 

Encontrar é achar, é capturar, é roubar,

mas não há método para achar, só uma

longa preparação. Roubar é o contrário de plagiar, copiar, imitar ou fazer como.

A captura é sempre uma dupla-captura, o roubo, um duplo-roubo,

e é isto o que faz não algo mútuo, mas um bloco assimétrico,

uma evolução a-paralela, núpcias, sempre “fora” e “entre”.

 

Gilles Deleuze e

Claire Parnet, Dialogue

 

 

Escrevo rente aos fios. Começo por roubar uma epígrafe, uma dupla-captura, um entre possível. Escrevo rente à paisagem perfurante do butoh, aos pontos que se deslocam no tecido, ao bando e a todas as vozes que falam em mim.

Começo por “Os Ínvios Caminhos”, pela paisagem de escuta, pela menina, pelo mar: o aberto. Em negrito, uma escrita outra, têxtil_bordada. Para lê-la: a outra mão. (2)

Qual ponto bordado se apresentaria como o ponto rigoroso que a levaria ao naufrágio? (3)

Caminhar não desejar caminhar sem querer caminhar não saber caminhar

Palavra em Ponto de Ponto. Ponto (4) reto, oblíquo, espesso. Ponto atrás de memórias que a convocam. Bordar a palavra não dita, a escrita tecida em fragmentos.

Haveria a tentativa de escrever algo além do Escrever? (5)

Haveria a tentativa de bordar para além do Bordar?

Pega nas mãos o peso do pensamento, um fora, um vazio, o abismo.

Dois passos cabem em uma respiração

Um duplo-roubo: “Quando borda_escreve, só importa saber em qual real se entra, e se há técnica adequada para abrir caminho a outros.” Haveria? (6)

Se concentra na relação quadril calcanhares, nos tremores do corpo, cria pausas no esforço, sustenta o fundo do rio.

Suriashi (7) é da ordem de um acontecimento. Desaloja os órgãos do corpo e adentra o invisível.  Dançar em estado de paisagem, como um espectro fantasmagórico que sente o espaço atravessar.  Dançar na ponta da agulha, cavar o poço com as mãos.

Repetir repetir repetir repetir repetir repetir repetir repetir repe

tir repetir repetir repetir repetir repetir repetir repetir repetir re

petir repetir repetir rep etir repetir repetir repetir repetir repet

ir repetir repetir repetir repetir repetir transformar

É a_bordar o aberto que o abismo se vislumbra (8). Entre o rio, o poço e o mar_______ um sutil desnível. Perfura o tecido e altera direções. Cria uma dança texturante e se entrega a lentidão. Enquanto escreve_dança flores brotam em seus pés, nas paredes, nos cotovelos, em seus olhos, no chão, nas janelas, nos pulmões. Um não mover_se contínuo. A pele: uma vertiginosa descida.

Os tecidos retidos não diferem dos tecidos entregues. Pulsão, torpor, o fluxo, os perigos do poço. Não encontra equivalente na boca. Perseguir, amar, um descuido, um corp´a´bordar, um chão. (9)

“Estou sentada diante do aberto. Sou a menina, ainda, e vejo o mar.” (10)

Talvez a lembrança seja outra, aquela que se apresenta na infância, desde a infância e que a buscou várias vezes.

Não me recordo quantas noites o mesmo sonho, o mesmo mar.

Caminhar por um longo tempo, travessia solitária da sempre mesma trilha. Mistura de caminho_estrada_floresta, parar, avistar ao longe a pequena casa.

Ela acena da varanda, cabelos presos e vestido florido. Sorriso doce, nenhuma palavra dita, um gesto-convite a entrar. Atravessa a pequena sala, a pequena cozinha, senta na soleira da pequena porta e contempla o mar.

Nunca entendi como era possível caber naquele pequeno quintal. Muros baixos, não se atrevia a vazar. Via diante de seus pequenos olhos a fúria das ondas que quebravam rente a seus pés. Nenhum passo adiante voltar retornar muitas vezes, o mesmo rastro, o mesmo vestido florido, o mesmo mar.

Pensava vez ou outra no tamanho de seu vazio que escorria pelo canto do sorriso, mas nunca desejou, por pavor ou suspeita, adentrar. Sentava contemplava partia voltava.

Anos depois o aberto, o espraiamento, o mesmo mar. De ondas tão grandes que a cobriam, cobriam a casa, a cidade beira a mar. Redoma meio aquoso de proteção, dava limite ao frágil corpo.

Ficar submersa, não lutar, contemplar o mar desde dentro, contrair uma parte, expandir a outra, suportar o fora, a imensidão, desejar sonhar, desejar respirar, não poder respirar, respirar no impossível, na fissura entre um oceano e outro, tudo tinha espaço.

Escrever.

Não Posso.

Ninguém pode.

É preciso dizer: não se pode.

E se escreve (11)

 

 

1. Suely Rolnik, Cartografia Sentimental, p.23.

2. Em negrito palavras de Emilie Sugai na condução do Suriashi no curso livre de butoh “Poemas do Corpo”.

3. Lucia Castello Branco, Os Ínvios Caminhos, p.09 e 10.

4. Lucia Castello Branco, Os Ínvios Caminhos, p.10.

5. Lucia Castello Branco, Os Ínvios Caminhos, p.10.

6. Maria Gabriela Llansol, Um falcão no punho, p.57, roubado do livro de Lucia Castello Branco, Os Ínvios Caminhos, p.10.

7. Suriashi: caminhar lento, um deslocar-se contínuo pelo espaço, técnica utilizada pelo butoh e aplicada no curso livre “Poemas do Corpo”, de Emilie Sugai, dentre outras.

8. Lucia Castello Branco, Os Ínvios Caminhos, p.12.

9. Lucia Castello Branco, fragmentos retirados do livro Os Ínvios Caminhos, p. 09 a 24.

10. Lucia Castello Branco, Os Ínvios Caminhos, p.12.

11. Marguerite Duras, Escrever, p. 46.

 

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