“É vermelho o início da árvore” de Ângela Castelo Branco

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“É vermelho o início da árvore” de Ângela Castelo Branco

R$25,00

A ARTE DO ENCONTRO
Carlos Felipe Moisés

Uma boa epígrafe para este novo livro de Ângela Castelo Branco poderia ser a definição famosa, de Vinícius de Moraes: “A vida é a arte do encontro embora haja tanto desencontro pela vida”. Mas ficaria tudo óbvio demais. É preciso, antes, que o leitor aceite o desafio de enfrentar o emaranhado de sinais que a escritora vai lançando, página a página: fragmentos soltos, reverberação irisada de caminhos que só fazem multiplicar-se em outros caminhos. Ângela tem consciência dos atalhos que a sensibilidade deve percorrer, um a um, para finalmente se deparar consigo mesma e com o outro:

“Estou pronta, neste quarto amarelo, a dialogar com as palavras. Elas podem fechar o sol. Elas podem tudo. Estou pronta, a professar com as estantes que aprendi a brincar de labirinto, mas não sei o que fazer quando me batem à porta.”

Por trás da aparente dispersão de temas e motivos (quase sempre fiapos de conversa, entreouvidos na sala de aula, no ponto de ônibus, no bar, ao virar uma esquina), o livro todo é regido por um especial e cativante estado de espírito: alerta, prontidão, disponibilidade plena, a amorosa e tensa atenção concedida a tudo em volta. 

O resultado é um interminável e inusitado desfile: peixes iluminados, uma velha ao piano, o sapateiro, mais peixes, os moradores da pensão, a mulher de poucas palavras, que “quando sorria cavalgava”, o homem que se lava na rua – todos “seres esfiapados”, pendentes de uma voz que luta para não perder um fiapo sequer, mas sabe “que tudo o que dissesse permaneceria pendurado no olhar”.

Neste ponto, o leitor já não terá mais dúvidas e saberá decifrar com segurança adágios enigmáticos como:

“Não tem pés mas caminha. / Matavam o pássaro para assumir o voo. / Olhar para cima e não enxergar o alto. / Há que se abrir as paisagens para encontrar pessoas. / Olhar de frente o muro que escorre negro. Na ponta de quem fala. / Eu te direi em palavras lavradas o que agora é o pó fértil do mundo.”

Primeiro, já no título, a árvore; depois, a casa, a rua, a língua, a palavra… A escritora sabe que o amor, a empatia, o encontro e o desencontro, a desejada comunhão consigo mesmo e com o outro, em suma, tendem sempre a se traduzir em linguagem verbal, anseio de descoberta, que muitas vezes fica apenas pairando, errante, “na ponta de quem fala”.

E nada disso é fruto dos mergulhos que a autora pudesse empreender nos desvãos do seu pequeno mundo interior. (Outra boa epígrafe, como aquela extraída de Vinícius, podia ser o dístico também famoso, de Mário de Sá-Carneiro: “Eu não sou eu nem sou o Outro, / Sou qualquer coisa de intermédio”.) Tudo partiu do contato com a vida em redor, tudo resultou de conversas com pessoas reais, como a autora revela com singeleza no final do volume. Lições de fala, lições de linguagem, lições de vida – como esta, definitiva, que Ângela ouviu de uma de suas interlocutoras, a também escritora Fanny Abramovich: “O que eu aprendi de Pedagogia, não aprendi com os meus professores da USP, mas com os meus alunos de três anos”.

O privilegiado leitor saberá dar sequência aos caminhos abertos pelo raro livro que tem em mãos.