Poemas Nômades

 

por Natalia Barros

 

Nikki Giovanni é poeta, educadora, editora e ativista. Nasceu em Cincinnati, nos EUA, em 1943. Fez parte do Black Arts Movement no final dos anos 1960. Influenciada pelo Movimento dos direitos civis dos negros nos Estados Unidos e pelo Movimento Black Power da época, seus primeiros trabalhos fizeram com que ela fosse conhecida como: Poeta da Revolução Negra. É autora de vários livros de poemas e atualmente professora titular no Virginia Tecch.

Apesar da sua enorme atualidade e intensidade poética, seus livros ainda não foram editados no Brasil. Os quatro poemas abaixo foram escolhidos através do precioso trabalho de divulgação de poetas negras, feitas pelas tradutoras: Stephanie Borges e Danieli Corrêa, publicados em blogs e revistas.

 

POESIA

poesia é movimento gracioso

como uma corsa

suave como uma lágrima

forte como o olho

encontrando a paz numa sala lotada

nós poetas costumamos pensar

que nossas palavras são de ouro

embora a emoção também fale

bem alto para ser definida

pelo silêncio

às vezes depois da meia noite ou um pouco antes

do amanhecer

sentamos máquina de escrever à mão

puxando a solidão à nossa volta

esquecendo nossos amantes ou filhos

adormecidos

ignorando esse cansaço fatigado

pela nossa própria lógica

para compor um poema

que ninguém entende

que nunca diz “me ame” porque poetas estão

além do amor

que nunca diz “me aceite” porque poemas não buscam

aceitação mas a controvérsia

ele apenas diz “eu sou” e por isso

reconheço que você também é

um poema é pura energia

contida horizontalmente

entre a mente

da poeta e o ouvido do leitor

se ele não cantar jogue fora o ouvido

porque a poesia é canto

se não houver deleite jogue fora

o coração porque a poesia é alegria

se não influencia então tranque

o cérebro porque está morto

se não estiver atento à mensagem insistente

de que a vida é preciosa.

 

BICICLETAS

Poemas da madrugada são bicicletas

Nos levando a caminhos mais seguros

Do que aviões

Mais rápidas

Do que caminhar

Mas nunca um caminho

Tão bonito

Quanto as minhas costas

Te tocando embaixo do edredom

Poemas da madrugada

Cantam uma doce canção

Dizendo que

está tudo bem

Está

Tudo

aqui por nós

Me estico

Para alcançar a risada

O cachorro pensa

Preciso de um beijo

Bicicletas se movem

com a brisa

da Terra

Como uma nuvem

Tão quieta

No céu de outubro

Como lamber um sorvete

No cone

Como saber que você

Estará

Sempre lá

Espero o dia todo

Pelo pôr do sol

Pela primeira estrela

Pela lua

Me movo

Para o poema

Da madrugada

Chamado

Você

Se apoiando

Nos perigos

 

MISERICÓRDIA

Ela me pediu para matar a aranha

Ao invés disso, peguei as armas

mais pacíficas que pude encontrar

Peguei um copo e um guardanapo.

Capturei a aranha, levei-a para fora

deixei que fosse embora

Se eu for pega no lugar errado

no local errado, apenas vivendo

sem incomodar ninguém,

espero ser acolhida

com a mesma

misericórdia.

 

NENHUMA TRADUÇÃO                                   

o cheiro de um assado no forno
nabos alho cebolas
batatas salsão mandioquinha
tomatillo mandioca

quadro do Jack Frost
as janelas

meus pés gelados
em suas costas quentes
“Começou em New Orleans
mas agora está em todo lugar. . .” Pure Jazz no rádio

chocolates café
um bom vinho tinto
18 graus e caindo
ventos fortes
talvez uma queda de energia

risinhos risada
moletom jeans

Converso com você
no idioma
do amor

nenhuma tradução
se faz necessária

 

Poesia – Tradução: Stephanie Borges

Bicicletas, Misericórdia, Nenhuma Tradução – Traduções: Danieli Corrêa

Cursos d'A Casa

[31/07/21] Bate-papo: Paraskeué e os processos de cura – com Flávio Fêo e Naine Terena

[27/07/21] Contar e Visualizar: Transpondo as Imagens para o Corpo e a Palavra – com Simone Grande

[27/07/21] Poesia marginal e periférica – com Jéssica Balbino

[27/07/21] Mergulho na História: o Lobo – com Ana Luísa Lacombe

[26/07/21] O ovo, a tartaruga e a noite: mitos de origem e o gesto criativo – com Ana Gibson e Juliana Franklin

[23/07/21] Uma leitura indígena sobre o Pensamento de Fanon – com Geni Núñez

[22/07/21] #artistaDEFpresente: novas perspectivas sobre o corpo com deficiência – com Estela Lapponi

[21/07/21] Estudos para nascer palavra – com André do Amaral

[21/07/21] Poéticas caiçaras: memórias subterrâneas e oralidade pulsante – com Janaína de Figueiredo

[19/07/21]Conversas ao pé do fogo. Viver e contar: a maravilha dos mundos – com Mara Vanessa