O VERDADEIRO OURO DOS ALQUIMISTAS É O SONHO DA LUZ DO SOL

 

Marcelo Ariel

 

“Aqueles que transformam a poeira em ouro com o olhar

Poderiam olhar para mim com o canto dos seus olhos?

Esconder minha dor dos médicos pretensiosos é melhor.

Que eles possam me curar do tesouro do invisível”.

Muḥammad Hāfez

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“Al-kimiya (alquimia), a metáfora, é a maneira dos poetas persas descreverem o desejo, doloroso ou ardente, da vontade de transformar poeira em radiação dourada e divina. Imaginar a pessoa que se ama ou deseja envolta no ouro da luz do sol.”Vanderley Mendonça via Facebook

O maior afeto é o do Sol, para além de qualquer sistematização ou tentativa de entendimento, ele é uma desmedida esfinge cósmica que silenciosamente nos faz a mesma pergunta todas as manhãs. Saber qual é a pergunta é um dos motivos do nosso nascimento sempre em andamento, sempre em desafiadora continuidade até sua espantosa e, por isso, misteriosa interrupção para troca de frequência chamada ‘nossa morte’. Depois do Sol há o afeto da água, o do oxigênio, o dos fungos e bactérias, os anjos reais da vida humana. A graça no sentido que Simone Weil confere ao termo está possivelmente ligada a consciência da existência destes afetos com o diferencial que no caso dela, Cristo é ou está no lugar do Sol como experiência. Nenhuma relação entre o pavor de Pascal e todas as relações com a intuição de Bergson? Eis uma boa pergunta.

A Al-kimiya mais do que uma metáfora do desejo é o modo como percebemos ou sentimos as transmutações do afeto do Sol em todos os outros afetos. As transmutações do afeto solar nas flores gerando em nossa mente, as cores e os perfumes são um exemplo perfeito da Al-kimiya, as ressonâncias da vida das flores com as metamorfoses de nossos afetos e desejos, tudo está entrelaçado, e na maioria das vezes essa trama e rama é maior do que a ideia de ‘nosso eu’, é um câmbio, um transe. A cada respiração solar do dia, percebo com mais ênfase que ‘nosso eu’ é um objeto de troca que nos foi ofertado por ‘nosso nascimento’. Lentamente se temos consciência das grandes percepções que nos vem do céu e da terra, trocamos o eu pelo mundo, mundificamos o eu que se torna idealmente parte dos raios solares, dos rios, das árvores, das flores. É dessa Al-kimiya que nos falam os poemas de Alberto Caeiro e os de Emily Dickinson, que não irei citar aqui, cavem nos livros, estas canções peroladas.

Jorge Ben, este extraordinário cantorpoeta do Brasil, diz na canção que abre seu conhecidíssimo disco  A TÁBUA DA ESMERALDA: ‘ Os alquimistas estão chegando’. Apontando para um certo devir e iminência  de estados éticos do ser que estão na duração de nosso nascimento, vindo em nossa direção, como o Sol.

 

 

Marcelo Ariel é poeta e mora em São Paulo

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