No avesso, uma faísca, por Ângela Castelo Branco

 

por Ângela Castelo Branco

 

Imensidão verde,

acabada no corte vermelho da terra.

*

E o meu corpo duro virou poeira,

Secou na cidade destruída.

*

Morreria na areia branca,

aos berros

*

Alheia de mim, me encontro na folhagem

*

A pedra não era mais pedra

Havia tempo

*

Eu era rascunhada

*

Às vezes, penso que as paredes são imaginárias.

*

Há folhas flutuando diante de seus olhos

*

A faísca pode sair de uma vela acesa.

*

Não há fim quando se busca um começo

(versos colhidos do livro Avesso, de Danielle Monteiro, edição da autora, 2020)

 

 

Esses versos do livro de poemas de Danielle Monteiro me chegaram de presente pelo correio, envolvido em um azul petróleo, livro de textura profunda, chamado Avesso. Logo, sou chamada a pousar na palavra petróleo- óleo que se retira da pedra.

Mas a pedra não era mais pedra. Havia tempo.

E havia mais pedra para além do que fizemos das pedras. E, durante a colheita,  meu avesso foi ficando ainda mais oleoso, denso, viscoso e borrando ainda mais as fronteiras que me separam de pensar o avesso da pedra.

Me recordo pela primeira vez em que me encontrei com o meu avesso. O ano era 2008 e meu chão se abriu, de modo que me esqueci como se anda pra frente. Recentemente descobri que na Austrália existe uma montanha que queima por dentro permanentemente. Mas o fogo é tão profundo, tão profundo que nada se vê ou se percebe por fora. Diferente do vulcão, que nasceu pra arder e sabe e conta.

É impressionante observar a capacidade de reagir que se tem diante da menor folha caindo ao vento, diante do menor animal passando ao lado, diante da menor areia branca grudada na pele depois que o chão se abre.

O poema vive lá, não caminha nem pra frente nem para trás, quer apenas escutar a língua mantida óleo quente na montanha.

Pois ele sabe que a faísca pode sair de uma vela acesa,

e as palavras nascem sem eu saber de onde.

 

 

 

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