Linha-lama, por Edith Derdyk

por Edith Derdyk

 

“ Na paisagem do rio
difícil é saber
onde começa o rio;
onde a lama
começa do rio;
onde a terra
começa da lama;
onde o homem
onde a pele
começa da lama;
onde começa o homem
naquele homem.”

João Cabral de Melo Neto (1)

No instante em que li esse poema de João Cabral de Melo Neto, pela primeira vez, os versos imediatamente ingressaram na paisagem que tanto caminho – a do desenho. Pode parecer meio estranho esta espécie de contrabando, emprestando a imagem deste poema e justapondo tais versos ao território do desenho. Este poema, sob essa ótica, também fala de linha, apresenta uma fronteira móvel, esta que designa uma região entre as coisas do mundo.

Mas será que este deslocamento de território não seria precisamente um dos efeitos da torção das palavras que os versos revertem quando em estado de poesia? Compreendo que ler o mesmo poema seria como ler esse pela primeira vez, instaurando o instante que se atualiza a cada leitura. Portanto, ao reler esses versos em voz alta, tento capturar como tal poema convocou em mim, praticante do desenho, a imagem que o aproxima da natureza da linha, elemento fundante do desenho?

A repetição insistente do advérbio de lugar “onde” nos mantêm suspensos na duração e extensão de um saber que não se sabe, alongando o amálgama entre o que inicia e o que termina. E o que sobra no meio é o lugar do poema, o lugar do rio-linha que escoa e ecoa.

Num segundo momento, percebo que “onde” se faz acompanhar pelo verbo “começar”, dando origem ao verso posterior arrastado pelo anterior, se tornando o substantivo temporalizado do verbo “começar” – onde a terra, onde a lama. Neste jogo prevalece o tempo de duração entre um verso e o outro que se repete e repete e se repete, tal água que passa e não pára de passar – e retorna, de forma meio espiralada, ao ‘onde’ que dá início a um outro “começa” até desembocar na fonte originária de uma paisagem em estado de passagem – “onde começa o homem / naquele homem”.

Essa repetição insistente parece procurar a afirmação de um contorno mais nítido neste território movediço: onde uma coisa começa e a outra termina? E o meio de tudo? E quando as duas palavras – “onde começa” – se juntam como margens ladeando esse rio, é instaurada uma direção cega, dada a incerteza inicial: “difícil é saber”.

O que sobra? O que resta? O que fica?

Uma espécie de coisa que está entre uma coisa e outra, mas que também não define nem uma e nem outra, sendo as duas ao mesmo tempo: nem rio e nem água, nem rio e nem terra, nem homem e nem no homem. Instaura-se uma região que descortina um vão, uma outra razão de ser rio : uma linha que se estende e se alonga e habita a região ‘entre as coisas’.

Onde começa e onde termina o rio na paisagem é a região movediça da linha, mas não de uma linha qualquer – uma linha-lama que tem um tanto de água e um tanto de terra, de onde o homem, um homem naquele homem, emerge e imprime uma passagem na paisagem.

A linha-lama inscreve o lugar de um espaço ainda não sabido. Daí a aproximação desse poema com o desenho: o traçado da linha que carrega um tanto de todas as coisas, sendo todas e nenhuma delas.

Na paisagem do rio a lama é o corpo espesso e informe da linha. A linha-lama transforma parecenças distantes em aparência comum, um contorno indefinível sem deixar de ser afirmativa e incisiva em sua moleza formal. Da lama úmida fica a possibilidade da solidificação e enrijecimento de alguma forma, fixando uma memória, rachada e craquelada. Talvez, um homem?

Como toda poética que alcança a sua inteireza em cada grão, esses versos se sustentam fora do continente coeso que é o longo poema Paisagem do Capibaribe que compõe o livro Cão sem plumas. Daí o recorte que reverbera outros sentidos e direções, tal como a linha e suas extensões no mundo.

(1) João Cabral de Melo Neto in Cão sem plumas. Ed.Nova Fronteira.RJ.1984.pg 36


crédito da foto: Maureen Bisilliat

 

 

Leia aqui o poema na íntegra: https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/4393347/mod_resource/content/1/Jo%C3%A3o%20Cabral%20de%20Melo%20Neto%20-%20O%20c%C3%A3o%20sem%20plumas.pdf

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