...e da linha de horizonte, por Edith Derdyk

por Edith Derdyk

 

 

Horizonte

O mar anterior a nós, teus medos
Tinham coral e praias e arvoredos.
Desvendadas a noite e a cerração,
As tormentas passadas e o mistério,
Abria em flor o Longe, e o Sul sidério
Splendia sobre sobre as naus da iniciação.

Linha severa da longínqua costa
Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta
Em árvores onde o Longe nada tinha;
Mais perto, abre-se a terra em sons e cores:
E, no desembarcar, há aves, flores,
Onde era só, de longe a abstracta linha.

O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esp’rança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte
Os beijos merecidos da Verdade.

Fernando Pessoa

 

O poema HORIZONTE de Fernando Pessoa (1) ecoa enigmas que me perseguem, nos persegue, porque a linha de horizonte – esta região impalpável porém eternamente presente, delineando o limite do infindável – reverbera insistentemente em minha pesquisa sobre desenho, compreendendo a linha como seu elemento estruturalmente vital.

Perseguir é um verbo com uma certa tonalidade policialesca mas, se tomarmos a palavra em sua etimologia, outra camada se abre: perseguição – do latim ‘persequere’ – ‘seguir até conseguir’. Em se tratando de linha de horizonte me pergunto: alguém já pegou alguma linha de horizonte em mãos? Andamos e andamos, obsessivamente, em direção aos horizontes no além do olhar sem fim e lá está ela, a linha, sem sair do lugar e sempre adiante. A linha de horizonte se oferece interminavelmente em estado de captura, e ela, a linha de horizonte, se afasta. Nunca chegamos lá, ninguém alcança lá e uma certa medida da distância se mantém, orientando desmedidas do além e do aquém – uns algures do infinito.   

“Linha severa da longínqua costa”: verso que delineia horizonte –  linha que existe na fronteira do olhar mas não existe de forma palpável.

“Onde era só, de longe a abstracta linha”: tal linha que alinha lugares utópicos.

Convivo constantemente com este poema de Fernando Pessoa e me reencontro nos fragmentos escritos por mim ao pensar o desenho, no livro Linha de Costura (2):

“A linha é uma divisória incerta. Mede e potencializa
a sutileza do limite, prevê um ponto de partida e
um ponto de chegada que às vezes pode nunca mais chegar.
E quando isso acontece a linha se estende infinitamente,
a não ser que apareça algum obstáculo. A linha ocupa um espaço entre.
A linha não é pertinente. Desvenda a relação entre os objetos
sem ser totalmente algum deles. A linha do horizonte
a quem pertence: ao céu, ao mar, à terra? Onde se encontra
a linha de encontro entre as coisas do mundo? A linha é fruto abstrato deste encontro
concreto.”

Ou neste fragmento extraído do livro Linha de Horizonte (3):

“Os olhos são ondulados pela linha de horizonte que pula, salta e  rodopia o traço de uma paisagem. A paisagem abraça um corpo por inteiro. Sem arestas, a linha de horizonte corre o mundo à nossa volta, acordando paisagens adormecidas e ocultas.                 

Linha de horizonte  intocável: feito estilete riscando espaços.                              

Onde anunciar seu ponto de chegada? Onde iniciar seu ponto de partida? Quero alcançar e agarrar esta linha impalpável. Tal como uma lâmina incandescente, a linha de horizonte cinde as superfícies que delineia. Linha mutante que adere, modela e se impregna dos montes serrilhados, dos vales em U, das planícies descampadas, das florestas rebuscadas, dos oceanos abismais, dos desertos movediços, das cidades inventadas, das paisagens. “          

Ler o poema HORIZONTE de Fernando Pessoa me inscreve nesta região, atualiza uma vaga ideia vaga sobre utopia, sinaliza uma contorno impalpável, delineia o desejo da descoberta: sem ponto de partida ou chegada. Basta o olhar tátil pousar sobre sua topografia ondulante para, em qualquer instante já, nos inscrevermos no tempo de algum lugar.

 

 

 

 

 

referências:

(1) PESSOA, Fernando. Horizonte in: Mensagem. Editora Hedra, SP. 2008

(2) DERDYK, Edith. Linha de Costura. Editora Iluminuras, SP. 1997 / Editora C/Arte, BH. 2010 

(3) DERDYK, EDITH. Linha de Horizonte; por uma poética do ato criador. Editora Escuta, SP. 2001 / Editora Entremeios, SP.2010. 

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