Ainda que sem fundamentos, por Ângela Castelo Branco

por Ângela Castelo Branco

 

 

ainda que não se tenha desenhado as raízes do pensamento em um solo firme,

ainda que nos comportemos como flores suspensas em vasos que não conseguem formular seus cresceres mais ocultos,

ou como aquelas plantinhas que nascem na água, no absurdo, sem fundamentos, sem raízes, tubérculos ou rizomas profundos,

ainda que o modo que captar alimento e de se fixar no chão seja por canículos emaranhados e amarelados,

ainda assim apostar no caminho e no seu modo de existir por rastros,

no seu modo de deixar circular as intensidades, sempre escapando, sempre se fazendo, sempre por se fazer,

ainda que se traga como experiência a sensação de uma origem sem origem,

alguém diz: esse clima, essa sensação de falta de fundamentos não é nova, são épocas de ruptura,

ainda que se possua raízes no jogo de crescer com a sensação de um pertencer-não-pertencer, de uma vida limitada pelos vasos, no desafio de sustentar umas poucas raízes atrofiadas,

ainda que as ideias permaneçam fora de centro, banhadas num contexto em que as razões nos aparecem ora nossas, ora alheias, luz ambígua de efeito incerto,

ainda que discurso tenha tomado um caminho e a ação, outro,

ainda que a vida conjunta tenha se tornado a prática das ideias fora do lugar e o nosso corpo, o lugar fora das ideias,

 

essa sensação de ter mais vocação para vaso do que para terra,

quer nos mostrar

a falta de fundamento como laboratório a outros pequenos fundamentos,

 

para não mais apontar o sem-sentido do vaso-do-mundo 

e suportar que o sem-sentido abre mundos.

 

(leitura de Bodenlos, de Vilém Flusser e As ideias fora do lugar, Roberto Schwarz, migrados para poema)

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