A convocação da beleza

 

por Natalia Barros

 

Compartilho alguns trechos do livro esculpir o tempo, que o cineasta Andrei Tarkovski escreveu. Seus filmes, que revi nessa quarentena, me causam uma mistura de estranhamento, entusiasmo e calma. Além disso, dão um sentido renovado de fluxo alegre aos tempos que chamamos de terríveis. Seguem aqui, abrindo a porta do poema que chamo presente:

1. A história não é ainda o Tempo; nem o é tampouco, a evolução. Ambos são consequências. O tempo é um estado: a chama em que vive a salamandra da alma humana.

2. A esta altura, é inevitável que nos lembremos daquilo que disse Proust a respeito de sua avó: “mesmo quando pretendia dar a alguém um presente eminentemente prático, como, por exemplo, uma poltrona, um serviço de mesa ou uma bengala, ela sempre fazia questão de que fossem “velhos”, como se estes, purificados do seu caráter utilitário pelo desuso, pudessem nos contar como haviam vivido as pessoas nos velhos tempos, em vez de se prestarem à satisfação das nossas necessidades modernas”

 

3. O que significam, em termos funcionais Leonardo da Vince e Bach? Nada – não significam absolutamente nada para além daquilo que eles próprios significam; esta é a medida de sua autonomia. Eles veem o mundo como se o fizessem pela primeira vez, como se não sentissem o peso de nenhuma experiência anterior. Olham para o mundo com a independência de pessoas que acabaram de chegar.

 

 

4. As pessoas estão sempre muito ocupadas, correndo atrás de fantasmas e reverenciando seus ídolos. No final das contas, tudo pode ser reduzido a um único e simples elemento, que é tudo com que alguém pode contar durante a sua existência: a capacidade de amar. Esse é o elemento que pode germinar e crescer no interior da alma, até se tornar o fator supremo que determina o significado da vida de uma pessoa. Minha função é fazer com que todos os que veem meus filmes tenham consciência da sua necessidade de amar e de oferecer seu amor, e que tenham a consciência de que a beleza os está convocando.

 

 

5. Não canso de admirar aqueles artistas japoneses medievais que trabalhavam na corte do seu suserano até conquistarem o reconhecimento e fundarem uma escola, e que então, no ápice da fama, mudavam completamente suas vidas indo para um novo local onde recomeçavam a trabalhar sob um nome diferente e com um novo estilo. Alguns dele são conhecidos por terem vivido cinco vidas diferentes no decorrer de sua existência terrena.

 

 

Imagem capa: A Infância de Ivan

Imagem 1: Nostalgia

Imagem 2: O espelho

Imagem 3: Polaroid do autor

Imagem 4: Tarkovski e pássaro

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