Sul da Fronteira, oeste do sol

 

por Keila Knobel

 

Há 12 anos li Haruki Murakami pela primeira vez. Foi a trilogia 1Q84. Hoje, conhecendo seu universo, acho que foi um começo que deu certo só porque eu estava predestinada a me apaixonar por ele, pois nesses livros todas as suas características principais já aparecem com força total, e eu fui totalmente surpreendida por seu estilo, sua temática e pelos mistérios que não solucionados, jamais explicados. Mas, como eu disse, foi daqueles encontros totalmente novos que mais parecem reencontros. Por isso, quando soube que “Sul da Fronteira, oeste do sol”, escrito em 1992, seria lançado aqui, corri.

Preciso reler outros livros do Murakami antes de dizer com certeza, mas acho que é um dos meus favoritos. Além de trazer sua ambientação, seus acontecimentos recorrentes (veja o bingo do Murakami, eu gosto de imprimi-lo e preenchê-lo para cada livro), em “Sul da Fronteira, oeste do sol” a relação do protagonista com uma mulher misteriosa (bingo!) que foi sua melhor amiga de infância desnuda a fragilidade daquilo que chamamos de equilíbrio, estabilidade ou até felicidade.

Pensando bem, o que mais me conquistou nesse livro foram as descrições de vivências que não são nada fáceis de descrever.

E acho que mantive, por muito tempo, um pedaço do meu coração vazio, destinado especialmente para ela. Como uma mesa tranquila, no fundo do restaurante, com uma discreta placa de “reservado”.

Era o oposto de um déjà-vu. Não a sensação de que eu já vira aquilo antes, mas o pressentimento de que voltaria a encontrar uma paisagem como aquela. Esse pressentimento estendeu seu braço longo e se agarrou firmemente à raiz da minha consciência. Senti a pressão dessa mão. Esmagado entre seus dedos estava eu mesmo. Eu no futuro, com vários anos sobre as costas.

Naquele momento eu havia perdido de vista, literalmente, a minha própria existência. Por algum tempo, não soube sequer quem eu era. Sentia como se o contorno da pessoa que eu era tivesse se desfeito e eu estivesse me dissolvendo em um lodo.

É um livro centrado na realidade, sem distorções de tempo e de realidade (como acontece em tantos de seus textos), mas que ainda dá margem para que cada leitor termine o livro com uma compreensão diferente da história.

 

Haruki Murakami, Sul da Fronteira, oeste do sol

Editora Alfaguara, Rio de Janeiro, 2021. 177 p

 

 

Cursos d'A Casa

[31/07/21] Bate-papo: Paraskeué e os processos de cura – com Flávio Fêo e Naine Terena

[27/07/21] Contar e Visualizar: Transpondo as Imagens para o Corpo e a Palavra – com Simone Grande

[27/07/21] Poesia marginal e periférica – com Jéssica Balbino

[27/07/21] Mergulho na História: o Lobo – com Ana Luísa Lacombe

[26/07/21] O ovo, a tartaruga e a noite: mitos de origem e o gesto criativo – com Ana Gibson e Juliana Franklin

[23/07/21] Uma leitura indígena sobre o Pensamento de Fanon – com Geni Núñez

[22/07/21] #artistaDEFpresente: novas perspectivas sobre o corpo com deficiência – com Estela Lapponi

[21/07/21] Estudos para nascer palavra – com André do Amaral

[21/07/21] Poéticas caiçaras: memórias subterrâneas e oralidade pulsante – com Janaína de Figueiredo

[19/07/21]Conversas ao pé do fogo. Viver e contar: a maravilha dos mundos – com Mara Vanessa