Paredes, chão, telhado, porão: o que compõe uma casa?

 

 

Por Carol Fernandes

 

Ao escrever estas linhas, tenho atenção para que minhas palavras não assumam uma função reducionista do meu trabalho, ou das infinitas leituras propulsadas pelos olhares que entraram ou entrarão em contato com o Se eu fosse uma CASA. Este cuidado é menos sobre um preciosismo inútil e mais sobre o respeito a tudo que nasce nas interseções e linguagens que os livros ilustrados são capazes de criar. 

Gestado em 2020, o Se eu fosse uma CASA encontrou interlocutores, de todas as idades, apenas em janeiro de 2021. Leitores e leitoras que são bebês, crianças, adultos e idosos. Apoiadores e apoiadoras que acreditaram na proposta do financiamento coletivo e colaboraram para que este trabalho pudesse existir mesmo em um contexto de desestímulo a arte, a cultura e a vida. Tenho muito orgulho e me emociono ao lembrar de todo envolvimento no processo de divulgação e em como a Tuya se animou com a proposta e conduziu, ao meu lado, cada uma das etapas de criação, publicação, embalagem e entrega dos livros. E ao ver, agora entregue, a obra circulando e alcançando, ainda que no ritmo do mercado independente, cada vez mais pessoas.

Em março do ano passado, bagunçada pela dura realidade do isolamento social, em virtude da pandemia do coronavírus, fui instigada a refletir o quanto de mim impregna as paredes, teto, chão, quintal, horta e muros da minha casa e, também, o quanto do meu corpo se pavimenta das matérias desta habitação. Em um movimento de distanciamento social somos obrigados a nos encarar, os relógios nos pregam peças e os calendários se aposentam, não há possibilidade de fuga. Acabei conhecendo, por nome e sobrenome, alguns fantasmas moradores daqui. 

A provocação inicial, que se transformou posteriormente em título do livro, gerou muitos outros questionamentos. Me perguntei para onde iriam os gritos de horror não acolhidos pelo socorro, vindos do interior de uma casa. Imaginei que eles, absorvidos pelas paredes, criam um perigoso vício: a indiferença. Já os gritos de amor, diferente dos sons de agonia, extrapolam os limites impostos pelos muros, transcendem o espaço, fertilizam o solo e nutrem bichos e pessoas. Em qual planta imaginária projetamos os nossos porões? Seria possível que eles fossem desenhados a partir dos nossos gestos de negação? Senti que era hora de registrar, com a ajuda da literatura, uma parte dessa experiência. Perdi a chave do portão desta morada quando nomeei sentimentos e dei forma a algumas de minhas lembranças. Materializei uma parte de mim que, antes suspensa, agora palpável não mais me pertence. Ao menos não da mesma forma.

Naquele mesmo período iniciei, junto a Tuya, o processo de criação. Pensamos na materialidade e já tínhamos em mente que o formato seria comprido, pois a casa habitante de minha imaginação era enraizada, mas alongada o suficiente para se alimentar de nuvens. Embora eu seja amante das técnicas de pintura molhadas, como as aguadas de nanquim e aquarela, a escolha delas muito se relacionou a criação de uma atmosfera úmida, infiltrada, que nos remetesse, em alguns momentos, o mofo. Muitas goteiras me fizeram companhia ao longo da vida e este era um elemento indispensável da casa que eu iria representar.

Sabemos que as escolhas nos livros ilustrados nos ajudam a contar, marcar o ritmo, destacar e até esconder, mas os acasos também podem ser acolhidos, fazendo parte do todo. Desde o início, eu e a editora, igualmente independentes, contávamos com um orçamento muito apertado. Vale saber que o material de pintura, principalmente o papel de gramatura adequada para este tipo de técnica, tem um valor muito elevado. A alternativa que encontrei, para uma maior economia e aproveitamento do papel, foi emendando algumas sobras e obtendo o tamanho desejado. O remendo criou, naturalmente, algumas marcas e minha pretensão inicial era apagá-las durante a etapa digital de tratamento das imagens. Por fim, desistimos da “correção”, pois percebemos que elas enriqueceram a composição das imagens, sugerindo o que parece ser o canto dos cenários. 

As cenas escolhidas, que se manifestam como turvas fotografias, ou, em algumas passagens, em curtas sequências, fazem parte de um acervo de memórias reais ou fabuladas. Despertadas pela poesia verbal e não verbal do livro, muitas pessoas me procuram para contar como algumas ilustrações acenderam antigas lembranças e acordaram sentimentos. A cena do dente no telhado é bastante pronunciada e reflito, recorrentemente, sobre a força lúdica do ritual de oferenda que propõe a entrega de uma parte da criança para a casa, como quem alimenta de matéria orgânica o seu próprio abrigo. 

Durante a minha infância, eu e meus irmãos lançávamos muitos dentes ao telhado do antigo barracão em que morei com minha família. Quando meu pai decidiu construir uma nova casa no mesmo território, desfazendo a antiga estrutura, procurei pelos dentes nos escombros e não encontrei nenhum. Me senti confusa e traída pelas telhas que abrigavam o amor dos gatos, lagartixas e passarinhos, mas que não foram capazes de guardar nem mesmo o menor pedaço de mim. Mais tarde as perdoei, porque observei o tempo e percebi que elas não podiam resistir a força dos ventos e das chuvas, por isso entregavam todo seu tesouro de miudezas.

Em outras circunstâncias, o incômodo causado pelo calor das noites quentes nunca se encerrava nele mesmo e o ar abafado era, aos poucos, preenchido por um enxame de aleluias exaustos de escuridão e famintos por luz. Certamente um único aleluia não seria capaz de mover uma casa inteira de lugar, mas um milhão deles (número confiável, estimado por mim quando menina), sincronizando o bater das finas asas, sim. Eu pensava no que faríamos se dormíssemos em BH e ao abrirmos as janelas, pela manhã, nos deparássemos com o mar diante de nossos olhos. Maravilhoso! Mas nem só de mar vive o mundo e o que aconteceria se nos perdêssemos no espaço? Naquele tempo eu já sabia da infinidade do universo e temia os caminhos, pois não havia nenhum tipo de mapa que pudesse me guiar entre os planetas. Preocupante!

Não me recordo de nenhum momento da minha infância em que as taiobas da horta, plantadas por minha bisa e ainda hoje cultivadas por minha vó, não tenham nos alimentado. Uma horta diversa de ervas, folhagens e tubérculos. Para o desassossego da jardineira, no último ano as taiobas atraíram, com sua suculenta aparência, muitas lesmas e caracóis. Bastante irritada com a situação, ela achou um absurdo ter que disputar as verduras cuidadas em terra adubada, regada e podadas por ela, com as “abusadas” que só apareciam depois de todo o trabalho duro. Guerra grande e anunciada, eu até tentei sair em defesa dos moluscos, mas não deu certo e quase sobrou para mim. 

Estas são algumas lembranças que escolho compartilhar com vocês, oculto muitas outras. No entanto, dentes lançados, janelas curiosas, taiobas que alimentam, alpendres ladrilhados, beijos e dores fazem parte de muitos inconscientes. Sinais em nós que se estruturam na relação que estabelecemos com nossas moradas, gentes, corpos e com os universos simbólicos presentes na palavra/imagem CASA.

Por fim e sem a intenção de empobrecer a potência das diversas possibilidades interpretativas, discorro um pouco sobre como eu me relaciono com a cena ápice do livro e quais foram os impulsos que me guiaram até ela. A última imagem, sustentada por um pôster que se desdobra e completa a narrativa, surgiu, povoou meu imaginário e convocou a palavra vida. Uma vida criança, negra, em simbiose com a casa, que se expande, afeta o observador e reclama existência. Que, embora esteja no final, é um convite ao princípio, um chamado para que os leitores e leitoras, agora familiarizados com o ambiente, entrem em estado de intimidade. Que reparem no varal que expõe, nos paradoxos espaciais, nos rastros e elementos acumulados durante o percurso e inscritos no longo corpo morada, que vai do solo encharcado pelas tempestades até o firmamento.

 

Biografia de Carol Fernandes:

Sou Carol Fernandes, nasci em Belo Horizonte (MG), cidade onde moro e trabalho como autora, ilustradora e artista visual. Conheci, me aproximei e me apaixonei pela literatura infantil durante meu percurso acadêmico na Faculdade de Educação da UFMG.

Atuei como professora da Educação Infantil e desenvolvi projetos de mediação e promoção da leitura literária entre as crianças e suas famílias. A relação direta com as crianças pequenas, mediada pelos livros ilustrados para as infâncias, foi o ponto de partida do desejo de criação dos meus próprios textos e imagens. 

Escrevi e ilustrei o livro Coração do Mar (2019), publicado em parceria com a Crivo Editorial, o fanzine Mulheres que guardo em mim (2019), lançado de maneira independente e o livro Se eu fosse uma CASA (2020), financiado coletivamente e publicado em parceria com a Tuya Edições. 

Se você ainda não conhece o Se eu fosse uma CASA, eu te convido a conhecê-lo em mãos. Acessando o www.carolcaracolilustra.com.br você encontra este e outros trabalhos.

Cursos d'A Casa

[31/07/21] Bate-papo: Paraskeué e os processos de cura – com Flávio Fêo e Naine Terena

[27/07/21] Contar e Visualizar: Transpondo as Imagens para o Corpo e a Palavra – com Simone Grande

[27/07/21] Poesia marginal e periférica – com Jéssica Balbino

[27/07/21] Mergulho na História: o Lobo – com Ana Luísa Lacombe

[26/07/21] O ovo, a tartaruga e a noite: mitos de origem e o gesto criativo – com Ana Gibson e Juliana Franklin

[23/07/21] Uma leitura indígena sobre o Pensamento de Fanon – com Geni Núñez

[22/07/21] #artistaDEFpresente: novas perspectivas sobre o corpo com deficiência – com Estela Lapponi

[21/07/21] Estudos para nascer palavra – com André do Amaral

[21/07/21] Poéticas caiçaras: memórias subterrâneas e oralidade pulsante – com Janaína de Figueiredo

[19/07/21]Conversas ao pé do fogo. Viver e contar: a maravilha dos mundos – com Mara Vanessa