Para Mário de Andrade, com amor, por Helô Beraldo

por Helô Beraldo

Querido Mário de Andrade,

 

Este mês quis celebrar sua escrita, sua vida, mais que tudo o que quis este ano. Por coincidência, ou não, amanhã é a data de seu aniversário, seria seu 127º aniversário e só poderia haver celebração. Mas como aqui as coisas andam muito confusas, acho que não será tão fácil celebrar com as pessoas. Temos nos adaptado, nesse 2020, a tanto! Estamos nos transformando em algo que não sei ainda o quê, alguns mais, outros menos, e seguimos humanos.

Daqui a uma semana, faz sete meses que estou em casa em isolamento social. Levo a sério essa coisa de cuidar do outro e de mim. Sim, me privo de muitas coisas por causa dessa escolha, mas, a meu ver, não há outro caminho e tenho uma lista de distâncias que me apertam por dentro. Por exemplo:

Estou longe de amigos, preciosidades que cultivo com conversas infindáveis ao redor da mesa, com abraços longos e apertados, com sorrisos, gargalhadas, choros e confissões compartilhadas muito melhor na presença. A família da alma, esses são os amigos. As telas dos aparelhos eletrônicos amansam um pouco essa saudade, quando posso, mas confesso que desligo a tela e me entristeço, não me acostumo. No entanto, fiz novos amigos, desses que conhecemos apenas pela tela, mas que sabemos (sabemos mesmo, acredite, é muito maluco, você adoraria essa novidade!) que se materializarão em corpo assim que der.

Estou, também, longe de pessoas que nunca vi, mas que puxam conversa comigo e desfiam confissões, reclamações, histórias de vida, sugestões de compras nos supermercados, e eu as escuto como se as conhecesse desde que nasci, porque acho bonita essa abertura de alguém querer conversar com quem nem conhece, mas acho triste também, pois sinto a presença de uma solidão que precisa transbordar. Às vezes, aparecem algumas dessas pelos meios digitais, mas não tenho tido paciência de dar atenção a elas. Não. Meu mundo agora está transbordando de palavras escritas e essa atenção, percebi, só consigo dar quando há mais que um retrato e palavras postos à minha frente.

Estou longe de caminhadas pela cidade de São Paulo, que insisto em querer conhecer com os pés nas ruas, usando meus cinco sentidos, pois eles a traduzem para mim: o cheiro das camélias na Rua dos Franceses, bem no fim daquela curvinha da subida, que se mistura ao cheiro do xixi de cachorro da casa que divide muro com a planta; o vento fresco da manhã que bate em meu rosto e o calor insuportável que vem do asfalto e do alto às duas da tarde e me cega; o cheiro dos livros na Livraria da Travessa, que só tem cheiro de livros, o que eu não sentia há muitos anos e pude sentir ano passado, no dia do meu aniversário (foi um presente); as árvores de frutas – pitangas, amoras, mangas, abacates (que medo de cair um na minha cabeça!), goiabas –, que me convidam a colher seus frutos, mas que me mostram o quanto estou velha e limitada: não tenho coragem de comê-las sem lavá-las antes; as pancadas de chuva inesperadas em que me encontro despreparada, sem guarda-chuva e de tênis furadinho, mas a que me resigno e isso me leva a um lugar outro, confortável, o de parecer maluca, com a roupa e o cabelo molhados; o metrô lotado e suas cenas de amor e ódio, as conversas que fico escutando e anotando mentalmente, as pessoas feito zumbis olhando para telas de celulares, andando como um rebanho com destino certo (poucas pessoas se olham nos olhos hoje em dia, Mário); o Cinesesc, seu café, os bolinhos de café com chocolate, o ar-condicionado e a arte; as mil possibilidades de viver que há em um dia nesta cidade e, de tantas, fico confusa e quero voltar para casa.

Estou longe de muita coisa que fazia parte do meu dia a dia e que, sim, fazia de tudo para valorizar o tanto que eu pudesse. Mas esse retorno obrigatório para casa não foi ruim, estava exausta do mundo rápido e cheio de gente. Nessa paz privilegiada (não preciso me arriscar por conta de sobrevivência, não preciso sentir medo, a não ser que queira), consegui entrar em contato com meus livros. São tantas as vozes que ocupam essas estantes e de quem nem ouvia um sussurro. Nos três primeiros meses, fui buscando tesouros que estavam escondidos nas estantes, tanta memória eles me trouxeram, e resolvi pôr, na voz dos outros, a minha voz. Uma dessas vozes foi a sua, Mário. Seu poema, “Eu sou trezentos”, tem um título que me descreve tão bem e me faz seguir na esperança de um dia topar comigo. É uma busca. É uma jornada inteira para nos toparmos conosco mesmos. Sigamos, Mário, com paciência.

Então, voltando ao início desta carta (desculpe a digressão, mas é que celebrar sua escrita não está separado do que está acontecendo por aqui), nesta semana surgiu essa urgência de celebrar sua escrita, pois percebi que na minha biblioteca não tenho dois dos livros seus com os quais trabalhei ano passado. Senti uma falta de não tê-los em mãos, mas a lembrança que me veio à memória foi tão boa, que até senti o cheiro deles! Pois é, tive a alegria e a honra de trabalhar em livros seus. Um deles me aproximou da pessoa que é a guardiã de toda a sua produção, a professora Telê Âncona Lopez*, de quem me apeguei como me apeguei a você; a quem admiro, como admiro você. Mário, ela é apaixonada por seus escritos, por seus estudos, por sua curiosidade, por seu rigor. Passa a vida como estudiosa e guardiã de tudo o que é seu e conserva a mesma alegria e surpresa de quando teve contato com você pela primeira vez. É um cuidado, rigor e amor ímpares. Trabalhamos juntas em um livro inédito: Aspectos do folclore brasileiro, publicado pela editora Global em 2019. Ele já estava em andamento quando o peguei para trabalhar, mas fiz questão de voltar alguns passos e rever cada vírgula, cada escolha de palavra, cada minúcia com a professora Telê. Duas apaixonadas por você, Mário! A ela, confessei que chorei em uma exposição quando, em um original de uma carta sua, vi como era sua letra. Aquela carta materializou, para mim, sua real existência. Atestou que você tinha passado pelo mundo e feito mesmo um tanto de coisas admiráveis, incríveis; tinha sua assinatura. Sei que não precisava vê-la para saber disso, mas a escrita me comove. Chorei, chorei mesmo e choro agora ao escrever isso e me lembrar daquele momento. A professora Telê me entendeu. E, olha, esse seu livro ficou lindo, acho que você ia gostar dele, porque foi um tanto de amor e de subversão que depositamos naquele fazer.

O outro livro seu com que trabalhei ano passado foi Contos novos. Quando soube que poderia trabalhar com o livro que me apresentou meu melhor amigo da adolescência, aquele que conversou comigo, em “O peru de Natal”, sobre uma situação que eu sentia tanto dentro de mim, mas que não podia dizer a ninguém, quase não acreditei. Acharam que falei isso da boca para fora, mas meu coração até disparou ao saber que passaria um tempo relendo seu livro, dessa vez de outra maneira, mas, sobretudo, em outra fase da vida, com outro olhar. Ao trabalhar em mais um livro do amigo que me acolheu, que não me julgou, que me fez gostar de literatura, tive o maior cuidado possível, fiz o meu melhor para retribuir sua amizade. Hoje em dia, “O peru de Natal” não é meu conto preferido. “Tempo da camisolinha”, Mário! Uma frase e uma atitude podem mudar tanta coisa na vida de uma pessoa. E “O poço”, “O ladrão” e “Frederico Paciência” – este último me emociona de um tanto, é um amor tão grande, e só relendo percebi a confissão. Publicado pela editora FTD no comecinho de 2020, é uma das mais belas edições de seus Contos novos, pode acreditar.

Esta carta não vai chegar a você, mas espero que chegue aos olhos de alguém que também goste de você ou de alguém que não o conheça, mas queira conhecê-lo só porque aticei sua curiosidade. Sei, sim, que vai chegar até Adélia Nicolete**, outra fã sua que me prometeu um passeio pelo centro da cidade de São Paulo, por lugares pelos quais você passou. Isso vai acontecer daqui a pouco (espero, esperança!). Vou andar a pé nessas ruas por onde você andou, sentir cheiros semelhantes, ver o que talvez você tenha visto, me sentar à mesa do restaurante que você frequentava e ter uma dessas conversas infinitas de que tanto sinto falta. Sei que já me estendi muito, vou terminando por aqui. Não desejo feliz aniversário antes, porque dizem que não traz sorte e tenho fé nas superstições. Mas desejo que seu dia seja celebrado sempre, por todos que o amam, e que muitas pessoas ainda o tenham como um novo amigo lendo seus livros. Desejo que não o julguem, que entendam que você era um homem do seu tempo e que, no seu tempo, estava muito além dele. E lhe agradeço imensamente: obrigada por tudo o que você deixou para nós.

Um abraço, com muito carinho,

Helô

 

*Telê Ancona Lopez é Professora Emérita do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da Universidade de São Paulo. Estuda especialmente o Modernismo brasileiro, as vanguardas europeias, os gêneros de fronteira, a crítica textual e a crítica genética, tendo publicado livros e artigos nessas áreas. Foi curadora do Arquivo Mário de Andrade do IEB-USP e, entre os anos 2006 e 2010, coordenou o projeto temático Fapesp que estudou o processo de criação e organizou os manuscritos do escritor. (Isso é parte do que é a professora Telê e copiei do e-book Melhores contos Mário de Andrade, também da editora Global. Faltou, nessa minibiografia, falar de sua generosidade, de seu comprometimento com sua missão de vida e de sua alegria de viver.)

**Adélia Nicolete é Mestre e Doutora em Artes Cênicas pela ECA-USP, dramaturga, escritora, professora. (Essas informações, retirei de um de seus blogs, http://materiavertente.blogspot.com/, mas Adélia é muito mais que isso: é uma pessoa gentil, generosa, curiosa, fazedora de coisas belas, exploradora de diversos mundos. Seu perfil no Instagram é um dos melhores, sigam: @adelianicolete_escrita.)

 

 

 

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