Desigreja, por Luis Lucena

por Luis Lucena

 

Desigreja

 

O grifo é meu. p.148

O pássaro absoluto voa sem vento, sem o dia nem a noite. p.143

A potência da mulher cria e derruba o deus. p.144

O sol visto ao microscópio esperneia. p.165

Aqui a história tornou-se um apêndice do mito.

A mínima destas árvores: carregada de pathos.

A dimensão de grandeza do ambiente exclui o monumento. p.156

O mito pré-fabrica a História, superando-a. p.146

Ditador: oito dias post mortem pensa ainda esmagar o verme. p163

As sombras de vez em quando perdem-se umas das outras. p.163

Já os subúrbios da bomba metem medo. p.163

O oráculo não tem pés. p.162

Os mármores frios são aquecidos pelo nosso contato. p.165

Os deuses semeiam dormindo. p.162

Murilo Mendes, Texto Délfico, livro Poliedro

 

4.

Escreve Novalis:

” As explicações são mistérios já resolvidos.” 

Quer dizer: tentamos.

Para não se saber só o Nada procuram-se distrações.

A filosofia, por exemplo,

a poesia, por exemplo,

a crueldade, por exemplo. 

Distracções.

Porque o Mistério é grande e tem braços, e quando se aborrece de ser observado por olhos que o querem explicar, 

aperta-nos o pescoço e MORREMOS.

O homem é o animal a quem trocaram a cabeça ao Nascer, 

e agora julga-se Filósofo, com ideias e remédios.

Alimenta-se do sol e é distraído.

Isolou-se dos Répteis e das aves, perdeu o rasto à couve Branca, ao Pepino verde, ao surpreendente arco íris, 

humilhou a Rocha Burra e agora vejam: grita, de novo, a correr, ofegante, atrás da última carruagem. 

Mas o único bilhete é perder a inteligência e a arrogância.

Porque explicar é transportar e ensinar com dedo alto, e o Mistério não aceita iguais, muito menos o paternal. 

Ou te calas de vez ou cortamos-te a cabeça.

Como homem não se falou cortaram-lhe a cabeça.

Gonçalo M. Tavares

Investigações. Novalis.

 

 

O jornal deu em 05/09 de 2019: é preciso esperar 4 dias para ver surgir uma igreja em São Paulo, conforme os últimos 25 anos.

Então, você pode fazer o que bem entender com o verdadeiro porque uma mulher chamada Llansol disse – o importante é saber em qual real se entra.

A folha diz: um padre leva sete anos para rezar uma missa completa e um pastor precisa de meses, testemunhos e precisão na seleção dos versos. Ela não diz: uma freira leva a vida toda, certos bares não aceitam mulheres. Não é um trocadilho, prece e pressa de mãos jogadas no lance dos dados.

1907 templos oficiais. 1132 é a soma que junta cadastros municipais de cinemas, teatros, clubes esportivos e clubes de rua. Fica evidente a qualquer pessoa que anda por aí: uma cidade imensa acontece em língua clandestina –  o texto, as catracas que a gente pula, os versículos que a gente junta, os pequenos encontros sem máscara para sobreviver, os quatro dias de respiro entre as igrejas, o prazer do texto.

Porque já me vesti de pastor tantas vezes, no prazer de testemunhar uma palavra para a passagem da carne no tempo, juntei esses versículos.

 

 

 

 

 

 

Luis Lucena é educador

Cursos d'A Casa

[13/03/21] Correnteza: uma jornada de mulher em jogo – com Yohana Ciotti

[09/03/21] Educação antirracista com histórias: mitos e contos africanos e afro-brasileiros – com Giselda Perê

[09/03/21] Ateliê de voz: escuta, experiência e criação – com Renata Gelamo

[09/03/21] Escreviver – com Lúcia Castello Branco

[08/03/21] A Linha e seus papéis – com Edith Derdyk