Qual casa caminha com você?, por Talita Minervino

por Talita Minervino

 

Talita, a gente fica bichada?

Na engenharia existe este termo quando a estrutura foi mal feita.

Existem alguns vícios ou patologias que podem surgir em uma estrutura de concreto armado em decorrência da sua construção. 

Não tem a ver com o uso que se deu a ele, mas a uma falha de cuidado durante a execução da estrutura. 

Quando se joga o concreto de uma altura grande ou não se movimenta a massa enquanto se despeja, podem surgir vazios neste concreto. 

Ele pode ficar oco em algumas partes. Isto é chamado de concreto bichado. 

Se os vazios forem muitos, podem comprometer a capacidade estrutural da peça…

E o que se faz? Os engenheiros não desenvolveram alguma técnica para resolver isto?

Acho que tem. Mas nunca irá ficar como se não fosse. 

Talvez até fique mais forte… depende da técnica. 

É como colar um copo de vidro que se quebrou.

Freud entendeu algo sobre como existiríamos a partir de nossas marcas.

Logo que comecei a estudar psicanálise, uma professora nos apresentou um exemplo tosco para esta compreensão. 

Pediu que imaginássemos uma mãe que usasse um alfinete para prender sua roupa, e que ao amamentar sua criança esta seria espetada.

Na busca pela repetição da experiência de satisfação, buscaríamos a sensação deste alfinete na pele. 

Enganados pela pista do caminho em direção ao alimento.

De certo modo, com o tempo comecei a achar isto um tanto equivocado. 

Não estaríamos simplesmente forçados a uma repetição. 

De maneira simplória, diria que permanecemos atrás do alimento da nossa existência. 

Mas por vezes não sabendo como achar, acabaríamos por pegar os caminhos já conhecidos, abertos, marcados…

Esta casa não segue o tempo do relógio – Ouvi Giu dizer.

Então o que a orienta?

O vivo. A pulsação de quem a habita.

Uma casa útero

Que ouve seus corpos

Se movimenta com seus corpos

Caminha com seus corpos

Uma casa não é apenas uma casa

Um corpo não é apenas um corpo

A existência é germinada no envolvimento

Ser envolvida por um corpo vivo, sensível ao nosso corpo, nos alimenta

A casa lugar

Suas janelas

Sua luz

Seu cheiro

Seus barulhos

Suas vozes

Seu espaço para correr

Seu corpo a abrigar uma existência

Dá lugar

Permite

Possibilita

Uma casa viva tem olhar

Calor

Lugar de repouso

Solto meus sonhos

Cavuco vontades

Uma casa que fala

Conta histórias

Ouve histórias

Acolhe histórias

Compõe com histórias

...Se a voz de uma mulher que conta histórias tem o poder de trazer crianças ao mundo, é também verdade que uma criança tem o poder de dar vida a histórias. Dizem que um homem ficaria louco se não pudesse sonhar à noite. Do mesmo modo, se não é permitido a uma criança entrar no imaginário, ela nunca se verá frente a frente com o real. A necessidade de histórias que a criança sente é tão fundamental quanto sua necessidade de comida, e se manifesta da mesma forma que a fome. Conte-me uma história. Conte-me uma história, papai, por favor. O pai então se senta e conta uma história para o filho. Ou então se deita no escuro ao lado do dele, os dois na cama da criança, e começa a falar, como se não houvesse mais nada no mundo se não a sua voz, contando uma história no escuro para o seu filho… E mesmo quando o menino fecha os olhos e adormece, a voz do seu pai continua a falar no escuro. (A invenção da solidão,  Paul Auster)

Um dos princípios da psicanálise é suspender o juízo de valor.

O que na prática acaba caindo em contradição, pois rapidamente vamos aprendendo a categorizar o que vemos e recebemos em paralelo um bom treinamento sobre “posturas adequadas” de um analista. 

Assim, o julgamento do outro e de si mesmo acaba por ser muito alimentado.

Não se propõe isto, mas se escorrega para isto.

Nesta casa mora a Luiza, que verdadeiramente olha para a vida com curiosidade. 

Pergunta sobre todas as coisas sem adjetivar. 

Com uma ética profunda para acolher o que se apresenta…

E se tivéssemos a generosidade de olhar para a vida, nossa vida, com estes mesmos olhos?

O cimento agora tão duro, poderia ser remexido, preenchido…

Porque de perto estaríamos. 

Uma casa viva também tem suas marcas.

Também sangra

Também morre

E até renasce

Ou se multiplica.

o que só acontece na presença

 

possibilita crescer

 

encontra com a beleza

 

abriga a inteireza

 

o olhar sensível

 

 paredes que sustentam

 

suportam fissuras

 

por aqui caminhamos

 

no que não se apaga

 

Talita Minervino é psicanalista.

Cursos d'A Casa

[13/03/21] Correnteza: uma jornada de mulher em jogo – com Yohana Ciotti

[09/03/21] Educação antirracista com histórias: mitos e contos africanos e afro-brasileiros – com Giselda Perê

[09/03/21] Ateliê de voz: escuta, experiência e criação – com Renata Gelamo

[09/03/21] Escreviver – com Lúcia Castello Branco

[08/03/21] A Linha e seus papéis – com Edith Derdyk