A consciência das palavras, por Liliana Pardini

por Liliana Pardini

 
 
 
Desde a primeira vez que tive uma aula com a professora Ângela Castelo Branco, desejei que aquele estado se demorasse. 
 
Esperei três anos. E na última primavera chegou a pós-graduação chamada Gestos da Escrita – escrita como prática de risco, aqui n’A Casa Tombada.
 
Nutrida de entusiasmo, fui conferir a bibliografia do primeiro módulo, cuja duração era de um mês. Onze livros. Conhece a sensação de querer todos? Mesmo sabendo que não haveria como ler todos em um mês? Os mais reluzentes aos meus olhos estavam com suas edições esgotadas. Parei a busca insensata na tela do computador e virei para a minha estante. De todos, eu tinha um. De 323 páginas. Um número até que razoável para os 30 dias do mês. Início-pés-na-terra.
 
São 15 ensaios, nos quais 6 me contam sobre os autores que ele mais admira. 
 
No primeiro, fui apresentada a Hermann Broch, escritor austríaco que formava suas palavras a partir do ar.
 
“O vício de Broch é respirar. Ele respira prazeirosa e apaixonadamente.”
 
“O ar é a única presa que lhe apetece.”
 
“ele conserva muito bem o que uma vez respirou.”
 
“O interlocutor é pouco percebido em sua maneira de pensar e falar; Broch está muito mais interessado em perceber como o outro faz o ar vibrar.”
 
“Pode-se mesmo pensar numa poesia configurada a partir da experiência respiratória?”
 
Depois dessa inspiração profunda, Canetti conversou comigo no ensaio seguinte: Poder e sobrevivência.
 
“ele quer ser o único. Quer sobreviver a todos, para que ninguém sobreviva a ele.”
 
“Mas tornar-se o único ser humano?”
 
Digo conversou porque a escrita veio ter com questões já minhas. Para mim é difícil entender o poder pelo poder. Um ensaio curto, mas que me fez baixar o livro e pausar muitas vezes.
 
Depois falamos de Karl Kraus. Outro austríaco, dos escritores mais ácidos que conheci. Dele li seus aforismos, por gostar muito de textos curtos. Sarcasmos construídos para serem lidos e relidos. Canetti conta o quanto o endeusou e como este ídolo foi deposto. Pensei em meus próprios ídolos e em como os admirei, me comportei para que me admirassem (mesmo que ficcionalmente), incorporei alguns hábitos e os abandonei  — aos ídolos, os hábitos passaram a fazer parte de mim. Ele diz:
 
“Ninguém que está começando pode saber o que encontrará em si. Não pode sequer pressenti-lo, uma vez que ainda não adquiriu existência. Com ferramentas emprestadas, ele penetra no solo que também lhe é emprestado e estranho – pertence a outros. Quando de repente, pela primeira vez, depara com algo que não reconhece, que não vem de lugar algum, ele estremece e vacila: pois isso é algo de próprio.
Talvez o encontrado seja pouco, um amendoim, uma raiz, uma pedra ínfima, uma picada venenosa, um novo cheiro, um ruído inexplicável ou logo um veio escuro e profundo; se tiver coragem e ponderação para despertar da primeira e medrosa vacilação, para reconhecer e dar nome ao que encontrou, aí começará a sua vida própria e verdadeira.”
 
Em Diálogo com o interlocutor cruel, trata sobre o diário. Cruel porque, de si mesmo, nada se esconde, “em nada podemos enganá-lo”. Fundamental, não como matéria prima de seus escritos, mas porque acredita que um homem poderia explodir se não se tranquilizasse num diário. “É quase inacreditável o quanto a frase escrita pode acalmar e domar o ser humano.” Continuo: acalmar e domar o “seu” humano. 
 
Além de diários, Canetti se interessa também por correspondências. O maior ensaio do livro é sobre as cartas trocadas entre Kafka e Felice, que deram origem a um volume de 750 páginas escritas em 5 anos de relacionamento. Foi durante o furor do início dessa troca que o escritor produziu suas obras mais notáveis, como A Metamorfose. Outro ensaio trata dos 23 anos de correspondências entre Karl Kraus e Sidonie. Kraus, aquele mordaz crítico social que “carrega um Etna dentro de si”, como se autodefine, se acabava de ansiedade aguardando o som da portinhola da caixa de correio bater, indicando a chegada de uma carta de Sidonie. Ela é a personagem principal de suas conferências, com assento reservado na segunda fila, “para o qual Kraus se dirige, mesmo quando, impossibilitada, não vem”. Chega a afirmar: “Tudo o que sou pertence a você”. E escreve em seu diário: “Alguém há, sem o qual nada deve acontecer, pois tudo tem que acontecer em função deste alguém…”. Uma obra monumental com destinatária certa.
 
Kafka, que deixou ordem a um amigo para que incendiasse todos os seus manuscritos após sua morte, teve toda sua correspondência vendida por Felice a um editor, publicadas 43 anos após sua morte.
 
Já Kraus desejou a publicação de suas cartas, “como algo que lhe confere o mais alto grau de veracidade.”
 
Canetti volta ao assunto do poder numa análise sobre a avidez pela permanência de Hitler, um “escravo do superar”. “Essa compulsão expressa algo de seu vazio interior”. Curioso saber como Hitler procurava manter em seu círculo íntimo pessoas “incapazes de qualquer opinião a seu respeito. Em seu meio, Hitler sempre se sente seguro de sua enorme superioridade”.
 
Aqui, desnuda a rigidez do que eu imagino ser um gigantesco medo do que é fluxo, vida e, portanto, da morte. Um ensaio duro, que me fez espiar o que deve haver por trás da cortina de líderes fascistas.
 
É um alívio seguir por Confúcio e Tolstói, apesar deste último ter tido a vida bastante atormentada no final.
 
O diário do Dr. Hachiya, um médico sobrevivente da bomba de Hiroshima, é de uma delicadeza tão dolorida que meu lápis deteve o gesto do grifo em respeito. Ficou em mim o silêncio que se seguiu à explosão e o cheiro da fumaça da queima dos mortos. “Numa catástrofe de tais dimensões, o que significa sobreviver?”
 
Há ainda uma homenagem à Georg Büchner, cuja obra Canetti leu só após ter escrito Auto de Fé. Sentiu como se tivesse sido atravessado por um raio. Insultou sua esposa por jamais tê-lo mencionado, ela que já havia lido o autor aos 20 anos. A resposta dela: “Fique feliz por não tê-lo conhecido antes. Do contrário, como poderia você mesmo ter escrito algo?”
 
Na aula do professor Jorge Ramos do Ó, na pós-graduação Gestos da Escrita, conheci a expressão “pequena comunidade”, algo a que Canetti se refere: “Para eles e muitos outros, meu livro já existia, antes de passar a existir para o público. Eu também só desejava realizar-me diante deles, dessas verdadeiras personagens de Viena, algumas das quais se tornaram grandes amigos.”
 
E termina com a reflexão: O ofício do poeta. Ele se deparou com a seguinte frase de um autor anônimo: “Fosse eu realmente um poeta, teria necessariamente podido impedir a guerra”. Pensou: “Que disparate! Que pretensão!”
 
Anotou a frase irritado. E continuou com ela. E andou com ela. E a repetiu. Até que…
 
“…foi por meio de palavras — consciente e continuamente empregadas, pervertidas — que se chegou a uma tal situação que a guerra tornou-se inevitável. Ora, se as palavras tanto podem, por que não haveria de poder impedir com elas a guerra?”
 
Aí sua última provocação: o que pode um poeta?
 
Foi uma escolha: ler um livro dentre 11. Imagino que os outros 10 sejam incríveis e espero chegar a eles um dia, mas não me arrependi por estar acompanhada de A consciência das palavras neste último mês. Um livro que se desdobra em muitos.
 
 

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